PL e emendas de Eduardo Bolsonaro, Mário Frias e Pollon bancaram filme sobre regimes comunistas de pré-candidato
O diretório nacional do PL, comandado por Valdemar Costa Neto, pagou R$ 600 mil do fundo partidário à ONG Passos da Liberdade entre janeiro e abril deste ano, em parcelas mensais de R$ 150 mil. A entidade, sediada em Porto Alegre e presidida pelo pré-candidato a deputado estadual Rodrigo Cassol Lima, está produzindo o documentário “Nós”, sobre regimes autoritários comunistas, financiado também com emendas parlamentares de figuras do bolsonarismo. Além dos R$ 600 mil do fundo partidário do PL, o projeto recebeu R$ 860 mil em emendas parlamentares dos deputados Mario Frias (PL-SP), Marcos Pollon (PL-MS) e Eduardo Bolsonaro (PL-SP), que perdeu o mandato em dezembro. As informações foram divulgadas pela Folha de S.Paulo nesta terça-feira (30).
Cassol Lima, presidente da ONG, é coprodutor e responsável jurídico da produção, reforçando a sobreposição entre a entidade, seu dirigente e o projeto cinematográfico financiado com recursos públicos.
A nota fiscal apresentada pelo partido justifica o gasto como “prestação de serviços de assessoria em comunicação e de produção audiovisual no Estado de Minas Gerais”.
A incongruência geográfica chama atenção: a ONG é gaúcha, seu presidente é pré-candidato a deputado estadual pelo PL no Rio Grande do Sul, e os serviços declarados teriam sido prestados em Minas Gerais.
Cassol Lima, que preside a Passos da Liberdade, acumula ainda as funções de coprodutor e responsável jurídico do documentário que a entidade está produzindo, o que estreita ainda mais o vínculo entre o repasse partidário e a produção audiovisual em curso.
O filme “Nós” e seu financiamento
A ONG Passos da Liberdade está produzindo o documentário “Nós”, anteriormente intitulado “Genocidas”, com foco em “regimes autoritários comunistas” na Europa após a Segunda Guerra Mundial. O filme fez gravações na Polônia, Alemanha, República Tcheca e Hungria, e tem estreia marcada para 15 de julho, em Brasília, no Cine Brasília, com lideranças da direita convidadas para o evento.
A Passos da Liberdade foi criada em 2023 e se registra formalmente como uma associação “de defesa de direitos sociais”, mas seu perfil é declaradamente conservador. O diretor do documentário, Gustavo Lopes, percorreu postos centrais do governo Jair Bolsonaro: chefiou a comunicação do Ministério do Trabalho e Previdência, depois a da Casa Civil, e encerrou o período como secretário nacional de Audiovisual em 2022.
Fora do governo, consolidou sua atuação no campo da direita cultural com os livros “Guerra Cultural” (2023) e “Liberdade Ameaçada” (2025), este último escrito em parceria com o deputado Marcos Pollon, um dos signatários das emendas ao próprio filme que Lopes dirige.
O corroteirista do documentário, Doriel Francisco, é dono da Dori Filmes, produtora responsável por “A Colisão dos Destinos”, lançado em maio, que narra a trajetória de Bolsonaro desde a infância até a Presidência. A equipe criativa de “Nós” reúne, portanto, figuras com trajetória direta no aparato de comunicação do governo anterior e na produção de conteúdo alinhado à direita bolsonarista, tudo financiado por parlamentares do mesmo campo político.
Posicionamento da ONG e implicações
Procurada, a Passos da Liberdade confirmou o contrato com o PL para “prestação de serviços de comunicação institucional, com entrega de produto audiovisual”. A entidade afirmou que a contratação “não se confunde com pré-campanha, campanha eleitoral, propaganda eleitoral ou promoção pessoal de qualquer dirigente” e que Rodrigo Cassol Lima não recebe remuneração pelo cargo.
A ONG também negou qualquer ligação com projetos do Ministério da Cultura e com o filme “Dark Horse”, que gerou crise na pré-campanha do PL à Presidência, classificando as iniciativas como “distintas”.
“A contratação tem natureza institucional e não se confunde com pré-campanha, campanha eleitoral, propaganda eleitoral ou promoção pessoal de qualquer dirigente da entidade.”
O que a ONG não explicou é o conteúdo concreto dos serviços prestados: a entidade invocou uma “cláusula de confidencialidade” para não detalhar o objeto do contrato.
A combinação de R$ 600 mil em fundo partidário com R$ 860 mil em emendas parlamentares, canalizados para uma ONG cujo presidente é pré-candidato do mesmo partido e coprodutor do filme financiado, coloca em evidência como recursos públicos podem ser mobilizados para a produção de conteúdo ideológico sem que os mecanismos formais de prestação de contas tornem transparente o que, de fato, foi entregue.
Assessoria/Caminho Político
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