Rio das Pedras: operação mira elo entre Comando Vermelho e milícia com histórico de ligações a Flávio Bolsonaro

A Polícia Militar do Rio de Janeiro deflagrou, nesta terça-feira (23), uma operação nas comunidades de Gardênia Azul e Muzema, na Zona Sudoeste da cidade, em resposta à crescente violência que assola a região de Rio das Pedras. A ação foi conduzida pelo Comando de Operações Especiais, com apoio de batalhões locais, e resultou em detenções, apreensões de armas e drogas e a localização de um desmanche clandestino de veículos.
O pano de fundo é uma guerra territorial entre milicianos e traficantes do Comando Vermelho, agravada pela deserção de integrantes da própria milícia para as fileiras da facção, numa disputa que deixa moradores reféns do fogo cruzado e paralisa serviços públicos essenciais.
Operação Policial na Zona Oeste
A operação desta terça-feira foi conduzida pelo Batalhão de Polícia de Choque (BPChq), braço do Comando de Operações Especiais (COE), com apoio do 18º BPM (Jacarepaguá) na Gardênia Azul e do 31º BPM (Recreio dos Bandeirantes) na Muzema. A PM informou que toda a região de Rio das Pedras e seu entorno recebeu atenção especial das forças de segurança, com patrulhamento intensificado e presença permanente voltados à preservação da ordem pública.
Os resultados imediatos da ação foram variados. Durante o reforço do policiamento na Cidade de Deus, agentes do 18º BPM avistaram homens armados que efetuaram disparos contra as equipes. No confronto que se seguiu, dois suspeitos foram detidos e duas pistolas, cinco rádios transmissores e entorpecentes foram apreendidos. A ocorrência foi encaminhada à 32ª Delegacia de Polícia. Na Muzema, as equipes recuperaram uma motocicleta, apreenderam drogas e localizaram um imóvel usado como desmanche clandestino, com diversas peças de veículos roubados no local.
Na Gardênia Azul, policiais do Batalhão de Ações com Cães (BAC) utilizaram cães farejadores especializados na detecção de armas e entorpecentes e encontraram grande quantidade de material ilícito escondido num espaço entre as paredes de duas residências. A operação é uma resposta direta à escalada de violência na região, mas especialistas alertam que ações pontuais, sem continuidade e integração institucional, têm se mostrado insuficientes para reverter o domínio do crime organizado na Zona Sudoeste.
A Escalada da Violência em Rio das Pedras e o histórico de ligação com Flávio Bolsonaro
A violência que motivou a operação desta terça-feira não surgiu do nada. Rio das Pedras vive há anos sob o domínio de uma milícia que, segundo investigações da Polícia Civil, chegou a manter cemitérios clandestinos na localidade. Comerciantes da região relatam uma rotina de medo: constantes trocas de tiros e cobranças de taxas abusivas impostas por criminosos que controlam desde o comércio de gás de cozinha até o mercado imobiliário informal.
Essa mesma milícia, que tem como braço de extermínio o Escritório do Crime, tem um histórico de conexões que alcançam o Senado Federal. O grupo era comandado pelo ex-capitão do Bope Adriano Magalhães da Nóbrega, morto em fevereiro de 2020 num controverso cerco policial no interior da Bahia. A mãe e a irmã de Adriano foram nomeadas para trabalhar no gabinete de Flávio Bolsonaro quando ele era deputado estadual na Assembleia Legislativa do Rio, indicação admitida pelo ex-assessor Fabrício Queiroz.
O próprio Queiroz, investigado por lavagem de dinheiro e ocultação de patrimônio no escândalo das rachadinhas, chegou a se esconder na região de Rio das Pedras quando o caso veio a público. Flávio Bolsonaro, por sua vez, chegou a ser investigado pelo Ministério Público do Rio por suspeita de envolvimento em empreendimentos imobiliários irregulares na mesma área dominada pela milícia, segundo documentos reportados à época pelo The Intercept Brasil.
A teia de relações entre o crime organizado local e figuras políticas de primeiro escalão nunca foi integralmente desvendada pela Justiça. O que as investigações já consolidaram é que o Escritório do Crime não era apenas uma quadrilha de extermínio: era também um negócio, com ramificações no mercado imobiliário, na política e no aparato do Estado.
A Aliança entre Milicianos Desertores e o Comando Vermelho
O cenário de violência se agravou de forma aguda com um fenômeno inédito na região: a deserção de integrantes da própria milícia para as fileiras do Comando Vermelho. A operação desta terça-feira acontece dias após a confirmação de que milicianos deixaram Rio das Pedras para se aliar à facção, numa estratégia que visa fortalecer o CV na disputa pela Zona Sudoeste e, ao mesmo tempo, enfraquecer os grupos paramilitares que historicamente dominaram o território.
A Polícia Civil obteve uma gravação de vídeo que ilustra a tensão interna gerada por essa mudança de lado. No material, é possível identificar a insatisfação de um miliciano com as deserções. Segundo a Polícia Civil, dois dos que trocaram de lado foram Juan Barboza de Sousa, o Farol, posteriormente morto em operação policial, e José Romário da Silva, o Solteiro, ambos ex-integrantes da milícia de Rio das Pedras que passaram a atuar pelo Comando Vermelho.
O líder da facção mencionado na gravação é, segundo a Polícia Civil, Edgar Alves de Andrade, o Doca, foragido com 46 mandados de prisão em aberto. De acordo com as investigações, Doca tem como objetivo dominar toda a Zona Sudoeste do Rio, sufocando a atuação dos grupos de milícia na área. A aliança entre desertores e o CV representa, portanto, não apenas uma disputa por pontos de venda de drogas, mas uma reconfiguração profunda do poder criminal numa região que o Estado nunca conseguiu, de fato, retomar.
Impacto Social e Resposta do Estado
A população de Rio das Pedras, Muzema e Gardênia Azul paga o preço mais alto dessa guerra. Moradores relatam tiroteios diários e afirmam não ver outra saída senão abandonar suas casas e deixar a região em busca de segurança. O fogo cruzado entre facções não escolhe hora nem lugar, e quem vive no meio do caminho não tem para onde correr.
Os serviços públicos essenciais também foram atingidos. Seis unidades de Atenção Primária da Secretaria Municipal de Saúde (SMS) que atendem as regiões suspenderam o funcionamento, avaliando a possibilidade de reabertura nas horas seguintes. Outras três unidades mantiveram o atendimento interno, mas suspenderam atividades externas, como visitas domiciliares. A Secretaria de Estado de Educação (Seeduc) e a Secretaria Municipal de Educação (SME) informaram que nenhuma escola precisou ser fechada e que as instituições atendem presencialmente na Muzema e na Gardênia Azul.
Para o antropólogo Robson Rodrigues, coronel e ex-chefe do Estado Maior da Polícia Militar, a resposta ao problema não pode se limitar a operações episódicas. Rodrigues defende o que chama de “ocupação racional e inteligente por parte do Estado”, com atuação integrada de todas as esferas do poder público para a retomada efetiva dos territórios. “É do Estado como um todo, para que territórios sejam retomados”, afirmou o especialista. A avaliação aponta para uma falha estrutural: enquanto o Estado aparece de forma intermitente, o crime organizado permanece.
O Negócio Imobiliário Ilegal e a Milícia
Por trás da violência armada, há um modelo de negócios. Segundo a denúncia do Ministério Público na Operação Os Intocáveis, deflagrada em janeiro, líderes do Escritório do Crime atuam como “sócios investidores”, aplicando dinheiro obtido em atividades ilícitas em empreendimentos imobiliários irregulares nas comunidades de Muzema, Rio das Pedras e arredores. Uma das conversas interceptadas pelo MP registra a negociação de um apartamento ilegal na Muzema: “Sessenta parcelas de quatro mil reais, valor final 150 mil”, diz um dos suspeitos ao interlocutor. O diálogo revela a naturalidade com que o crime organizado opera o mercado imobiliário informal na região.
A organização criminosa não se limita à construção e venda de imóveis. Segundo a mesma denúncia do Ministério Público, o grupo atua em grilagem, locação ilegal, extorsão de moradores e comerciantes com “taxas de segurança”, agiotagem e monopólio da venda de gás de cozinha. A Prefeitura do Rio reconhece que a milícia dificulta a atuação dos fiscais municipais na região, impedindo a fiscalização das construções irregulares. Em novembro de 2018, a prefeitura só conseguiu realizar operação de interdição no local com apoio da Polícia Militar.
As consequências dessa impunidade já se materializaram em tragédia. Em abril do ano anterior, dois prédios irregulares na Muzema desabaram, matando 24 pessoas e ferindo dez. A Muzema é uma Área de Proteção Ambiental (APA), e as construções erguidas pela milícia não obedecem aos parâmetros legais de edificação: ignoram afastamento frontal, gabarito, taxa de ocupação e número de unidades permitidas. O resultado é uma paisagem de prédios precários, erguidos com dinheiro do crime, vendidos a famílias que não sabem, ou não têm escolha, sobre os riscos que correm.
Assessoria/Plinio Teodoro/Caminho Político
📢 Jornalismo profissional e de qualidade. Acompanhe as últimas notícias de Cuiabá, de Mato Grosso, de Brasil e do Mundo.
📲 📰 💻Siga o Caminho Político nas redes sociais 💻
🌐www.caminhopolitico.com.br
🌐www.debatepolitico.com.br

Comentários