Delegados reagem a Flávio Bolsonaro e Nunes por ataques à Polícia Civil

A Associação dos Delegados de Polícia Civil do Estado de São Paulo (ADPESP) saiu em defesa da operação que investiga um contrato de R$ 108 milhões firmado entre a Prefeitura de São Paulo e o Instituto Conhecer Brasil (ICB), rebatendo críticas feitas pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e pelo prefeito Ricardo Nunes (MDB), que apontaram suposta motivação política na ação policial.
Na segunda-feira (1º), a Polícia Civil cumpriu mandados de busca e apreensão na sede da produtora Go UP Entertainment, responsável pelo filme Dark Horse, cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), além do escritório do Instituto Conhecer Brasil. As duas organizações são ligadas à empresária Karina Ferreira da Gama, que preside o ICB e é proprietária da produtora.
A investigação apura possíveis irregularidades em um contrato firmado entre o instituto e a administração municipal para a instalação de pontos de wi-fi gratuito em comunidades da capital paulista. Segundo a Polícia Civil, há suspeitas de sobrepreço nos valores pagos pelo serviço.
“Ninguém está acima da lei”
Em entrevista à Folha de S.Paulo, o presidente da ADPESP, André Santos Pereira, afirmou que a investigação segue os procedimentos legais e negou qualquer viés político na atuação dos investigadores.
“Ninguém está acima da lei”, declarou o delegado, acrescentando que o caso está sendo conduzido dentro do rito processual previsto na legislação.
Pereira também destacou que o Tribunal de Contas do Município (TCM) teria identificado cerca de 20 irregularidades no edital do contrato e recomendado a suspensão do processo, medida que não foi adotada pela prefeitura.
“Não se trata, a meu ver, de uma perseguição política. Trata-se do cumprimento do dever constitucional de apurar eventual irregularidade no âmbito de contratos públicos”, afirmou.
Motivações eleitorais
As críticas à operação partiram de aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro. Flávio Bolsonaro sugeriu que a investigação poderia ter motivações eleitorais.
“Só espero que não seja uma perseguição estatal por parte de alguns setores para influenciar as eleições”, declarou o senador.
Ricardo Nunes também questionou a ação policial e classificou a operação como uma possível “perseguição política” e um “desrespeito à democracia”. A Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia, responsável pelo contrato investigado, também foi alvo das buscas.
Segundo o prefeito, parte dos documentos apreendidos já havia sido entregue anteriormente aos investigadores. Nunes afirmou ainda que, caso a operação esteja relacionada à produção do filme Dark Horse, a situação seria preocupante.
“Se a motivação é por conta do filme, então estão indo atrás de um contrato com a prefeitura de 2024 por causa disso. Aí é grave, é perseguição política”, declarou.
O caso ganhou repercussão após a Go UP Entertainment e o ICB passarem a ser citados em reportagens relacionadas ao escândalo envolvendo o Banco Master. As revelações apontaram que Flávio Bolsonaro teria solicitado recursos ao empresário Daniel Vorcaro para financiar a produção de Dark Horse. Segundo informações divulgadas pela imprensa, o ex-banqueiro teria desembolsado R$ 61 milhões para o projeto.
De acordo com as reportagens, os recursos teriam sido transferidos ao exterior por meio da Entre Investimentos e destinados ao fundo Havengate Development Fund, nos Estados Unidos, administrado por Paulo Calixto, advogado ligado ao deputado federal licenciado Eduardo Bolsonaro (PL-SP). A Go UP nega ter recebido recursos de Vorcaro.
Além do contrato sob investigação, o Instituto Conhecer Brasil também recebeu cerca de R$ 700 mil em emendas parlamentares. A trajetória da produtora ganhou projeção nos últimos anos após a aproximação de Karina Gama com o deputado federal Mário Frias (PL-RJ), ex-secretário especial da Cultura do governo Bolsonaro.
Tarcísio
Questionado sobre a controvérsia, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), afirmou que o governo estadual não interfere no trabalho da Polícia Civil.
“A polícia tem autonomia para fazer as suas investigações, para fazer as suas operações. É uma instituição de Estado. Havia uma investigação em curso, uma demanda do Ministério Público, e a polícia cumpriu essa demanda”, declarou o governador durante agenda em Rio Claro, no interior paulista.
Tarcísio acrescentou que a corporação continuará atuando com independência institucional. “A polícia vai ser e sempre será uma instituição de Estado, está a serviço do Estado”, concluiu.
Assessoria/Caminho Político
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