O presidente argentino Javier Milei vive o momento mais crítico desde que assumiu a Casa Rosada, em dezembro de 2023. Pesquisas recentes apontam índices de desaprovação superiores a 60% — os piores do mandato. O levantamento da Atlas Intel, por exemplo, divulgado no fim de abril, registrou 63% de reprovação e apenas 35% de aprovação. A Opera Mundi, analistas citam três fatores principais para compreender a queda do mandatário ultradireitista: escândalos de corrupção, deterioração econômica e desgaste da narrativa “anticasta”.
A retórica antipolítica e anti-Estado mobilizou milhões de argentinos. Milei foi eleito com a promessa de combater radicalmente a corrupção, eixo central do discurso contra a chamada “casta política” — grupo que, segundo ele, teria se apropriado do Estado argentino para manter privilégios.
Hoje, porém, 66,6% da população avalia que a promessa anticorrupção foi rompida e que o governo passou a integrar a mesma “casta” que criticava, segundo pesquisa da consultoria Zentrix.
Escândalos envolvem braço direito e irmã de Milei
Essa percepção da opinião pública ocorre em um contexto de inúmeras denúncias de corrupção desde o início do mandato, começando pelo caso da criptomoeda Libra, o armazenamento de alimentos sem distribuição no Ministério do Capital Humano, investigações contra aliados do governo e suspeitas de propina envolvendo a irmã do presidente, Karina Milei, em contratos com farmacêuticas. O governo nega todas as acusações e, até o momento, a Justiça não concluiu as investigações.
O caso mais recente envolve o chefe de gabinete Manuel Adorni, ex-porta-voz da Casa Rosada no governo Milei. É apurada a aquisição de imóveis de alto valor considerados incompatíveis com a renda declarada pelo funcionário — ao redor de R$ 12 mil no câmbio atual. Adorni rejeita as acusações de enriquecimento ilícito e defende seu patrimônio.
Milei saiu em defesa de Adorni e chegou a dizer que estaria disposto a perder as eleições, mas não abandonaria seu braço direito. A declaração gerou repercussão política: críticos interpretaram o gesto como uma contradição da promessa anticasta, enquanto apoiadores sustentaram que o presidente demonstrou lealdade pessoal.
Para o cientista político e professor da Universidade San Martín, Ivan Schulliaquier, os escândalos do governo Milei ganharam maior repercussão em meio ao agravamento da crise econômica. Segundo ele, a Argentina “enfrenta uma forte deterioração do poder de compra e da renda da população”.
“Também se colocou em risco a confiabilidade das estatísticas oficiais, depois das mudanças metodológicas e saídas de técnicos responsáveis por indicadores sociais, ampliando a desconfiança nos dados divulgados pelo governo, como a redução da inflação e da pobreza”, afirmou.
Apesar do desgaste vivido pelo governo Milei, Schulliaquier avalia que o presidente argentino ainda preserva uma base sólida de apoio, estimada em cerca de 35% da população. “Ainda há um núcleo forte que segue apoiando o governo, como vemos nas pesquisas.”
Já o cientista social argentino Alejo Pasetto considera que o modelo econômico do governo vem produzindo crescente insatisfação social. De acordo com o também chefe de análise política da Epyca Consultores, os escândalos de corrupção funcionam como uma espécie de lente de aumento sobre a crise econômica.
“A crise econômica, impulsionada pelo aumento do custo de vida, fechamento de empresas e precarização do trabalho, é agravada pelos escândalos de corrupção e pela crise política da qual o governo não conseguiu sair ileso.”
Perseguição à imprensa
Em meio ao desgaste da imagem do governo, a relação de Milei e de seu gabinete com a imprensa também se deteriorou. Recentemente, a Casa Rosada proibiu jornalistas credenciados de frequentar coletivas sob suspeita de gravações não autorizadas dentro da sede do governo. Após forte repercussão negativa, a medida foi revertida.
A situação de censura prévia expõe o clima de tensão entre o governo libertário e parte da imprensa argentina. Um jornalista de renome no país relatou à reportagem, sob anonimato, que sofreu pressão interna após investigar denúncias envolvendo Milei.
A economia que não decola
Ao assumir o governo, Milei afirmou que os primeiros anos seriam de “sacrifício dos argentinos” para equilibrar as contas públicas. A recessão foi apresentada como necessária para reorganizar a economia e reduzir a inflação. Dois anos e meio depois, a inflação caiu de cerca de 250% anuais para aproximadamente 33%, e o governo alcançou superávit fiscal. Ainda assim, a melhora macroeconômica não se refletiu na vida da população.
Dados oficiais mostram retração de 2,6% da atividade econômica em fevereiro, em relação a janeiro, e queda acumulada de 2,1% em 12 meses. A produção industrial recuou 4% no mês e acumula baixa de 8,7% interanual.
O desemprego chegou a 7,5% no quarto trimestre de 2025, acima dos 6,4% registrados no mesmo período do ano anterior. Isso representa cerca de 1,7 milhão de desempregados. Na Grande Buenos Aires, a taxa alcançou 8,6%. A informalidade já atinge quase 43% da população economicamente ativa do país.
Economistas apontam que a recuperação econômica se concentra em setores de baixa geração de emprego formal — como energia, agronegócio, mineração e serviços financeiros. Esses segmentos conseguem expandir o PIB sem criar postos de trabalho em escala suficiente para sustentar consumo, arrecadação e mobilidade social.
Para a reportagem, o economista e pesquisador do Centro de Investigação Científica (Conicet), Francisco Cantamutto, afirmou que a Argentina atravessa, há uma década, um período de “relativo estancamento”, sem conseguir retomar o crescimento sustentado. Para ele, o governo Milei representa “uma versão extrema da ortodoxia econômica”.
“O crescimento dos últimos anos foi puxado por poucos setores, mas isso não se traduz em criação de emprego”, disse. Segundo ele, a expansão do PIB em 2025 ocorreu paralelamente à destruição de postos de trabalho.
Cantamutto destaca que os setores mais dinâmicos da economia — agronegócio exportador, mineração, hidrocarbonetos e intermediação financeira — têm baixa capacidade de absorção da força de trabalho. “Nenhum desses setores é especialmente gerador de empregos.”
Para o pesquisador, o país vive um processo de expansão econômica sem geração de emprego, marcado pela substituição de vagas formais por trabalho informal e autônomo. “As pessoas trabalham mais horas, em jornadas extenuantes, para tentar alcançar uma renda suficiente”, afirmou.
Ainda assim, segundo ele, o esforço não tem sido suficiente para manter as condições de vida. “A população está esgotada, sem recursos suficientes e sem perspectiva de futuro.”
Oposição desorganizada pode favorecer Milei
O presidente Milei perdeu cerca de 10 pontos nas intenções de voto nos últimos cinco meses e hoje aparece em empate técnico com o peronismo — oscilando entre 33% e 37% nas projeções para a eleição presidencial de 2027, de acordo com as últimas pesquisas de intenção de voto.
A análise do cientista político da Universidade de Buenos Aires Facundo Cruz, que se dedica a estudar a direita na Argentina, é a de que apenas metade da queda do governo foi absorvida pelo peronismo. “Os outros cinco pontos foram para forças menores e indecisos.”
O cientista político acredita que, entre os apoiadores mais fiéis do presidente, o sentimento atual seria de “desconcerto” com o governo, enquanto parte dos eleitores mais flexíveis demonstra “desencanto”. Ainda assim, Cruz afirmou que Milei pode recuperar terreno caso consiga “resolver os escândalos de corrupção, retomar a agenda política e melhorar os indicadores econômicos”.
Analistas coincidem, contudo, que o caminho não será fácil. Enquanto isso, o cenário político para 2027 segue indefinido, sobretudo pela ausência de uma oposição articulada e com a maior líder peronista, Cristina Kirchner, em prisão domiciliar desde junho de 2025.
“Diversos setores tentam construir alianças competitivas, mas Milei ainda se beneficia da fragmentação opositora”, afirmou Pasetto. Para ele, Milei teria dificuldades para se reeleger se a eleição fosse hoje, embora o cenário permaneça aberto.
Por sua vez, Ivan Schulliaquier avaliou que a força política de Milei vai além da economia. O cientista político acredita que o presidente consolidou uma identidade ligada ao antiperonismo e ao antikirchnerismo, capaz de sustentar apoio mesmo em meio à crise social e às denúncias de corrupção. “Há algo interessante: as identidades políticas continuam importando”, disse.
Segundo ele, a polarização permanece intensa: enquanto apoiadores mantêm fidelidade ao governo, a rejeição entre opositores é “muito dura e muito forte”.
A trajetória do governo, porém, mostra desgaste acelerado. Em janeiro de 2024, Milei tinha 49% de aprovação e 48% de rejeição. Pouco mais de dois anos depois, a diferença se inverteu. O presidente que prometeu destruir a “casta” agora enfrenta o desafio de convencer o eleitorado de que não se tornou parte dela.
Assessoria/Fernanda Oliveira/OperaMundi/Caminho Político
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