Os "filhos de Chernobyl" que receberam tratamento no Brasil

No final dos anos 1990, comunidade ucraniana do Paraná financiou programa que trouxe para tratamento em Curitiba crianças que sofriam com efeitos de desastre nuclear de 1986.
"Foi a experiência mais maravilhosa da minha vida, eu me emociono até hoje", relata Tânia Regina Welgacz ao lembrar de Dasha, a menina ucraniana de 9 anos, que veio ao Brasil pelo Programa Crianças de Chernobyl no final dos anos 1990 e que ela abrigou em sua casa. Idealizado pelo então embaixador do Brasil na Ucrânia, Mário Augusto Santos, e colocado em prática pelo presidente da Representação Central Ucraniano-Brasileira Jose Welgacz, o projeto trouxe para Curitiba crianças ucranianas que tinham problemas de saúde relacionados ao acidente de Chernobyl. Na capital do Paraná, o estado que possuiu a maior comunidade ucraniana no país, elas receberiam atendimento médico complementar por pouco mais de dois meses.
No final de fevereiro de 1999, desembarcavam em Curitiba as primeiras cinco crianças vindas de Kiev, acompanhadas por um profissional de saúde da Ucrânia. Ao longo daquele ano, o programa recebeu outros dois grupos com cinco crianças cada um, com idades entre 7 e 12 anos. Apesar de nascidas após o acidente nuclear de 26 de abril de 1986, elas tinham problemas de saúde relacionados à radiação emitida no incidente e eram consideradas vítimas de Chernobyl.
Dasha fez parte do último grupo que veio para o Brasil. Ela foi acolhida por Tânia e sua mãe Eleutéria Zadorosny Welgacz em Balneário Camboriú (SC). Tânia lembra que a menina ficaria inicialmente com outra família em Curitiba, que não pode recebê-la devido a um problema de saúde. Após conversar com seu irmão, o presidente da Representação Central Ucraniano-Brasileira, ela decidiu hospedar a menina.
Tânia conta que no início a Dasha andava sempre com um álbum com fotos da família, mas com o tempo foi se soltando. "Foi uma experiência de amor e carinho. Você está com uma criança que a mãe e o pai estão longes, então você tem que dobrar o afeto e atenção para essa criança. É um amor fora de série. Todas essas crianças receberam um amor especial das famílias que cuidaram delas", conta Tânia, que levava Dasha para fazer o acompanhamento médico em Curitiba.
Essa lembrança positiva é guardada até hoje pelas famílias que receberam as crianças e pelo idealizador do programa. "As crianças que foram para o Brasil me impressionaram muito e as pessoas que as acolheram também. Eram crianças muito inteligentes. As famílias ficaram muito satisfeitas em fazer esse trabalho, e também se impressionaram muito", lembra o ex-embaixador Mario Augusto Santos.
O projeto
Ao ter a ideia para aproximar mais a comunidade ucraniana do Brasil com o país europeu, Santos entrou em contato com Welgacz, que fez a mediação no Brasil para tirar o projeto do papel.
O programa era semelhante a uma iniciativa que já ocorria em Cuba, que recebeu milhares de crianças vítimas de Chernobyl para acompanhamento médico entre 1990 e 2011. No entanto, diferente do projeto organizado por Havana e Kiev, o programa brasileiro foi completamente financiando pela comunidade ucraniana do Paraná.
Welgacz conta que, na época, a Representação Central Ucraniano-Brasileira fez um acordo com o Hospital Evangélico, em Curitiba, onde as crianças fariam exames e receberiam o acompanhamento médico. Depois, ele buscou igrejas ucranianas para fazer uma campanha para achar famílias voluntárias para hospedar essas crianças e os profissionais de saúde que acompanhavam os grupos.
Todo o projeto foi financiado pela comunidade ucraniana, que arcaram inclusive com os custos das passagens. "Foi muito emotivo. Foi uma experiência muito interessante", lembra Welgacz.
Alegrias e desafios
Para o ex-embaixador, um dos grandes desafios foi convencer os pais a liberaram as crianças selecionadas pelo Ministério de Saúde da Ucrânia. "Eles não tinham nenhuma noção sobre o Brasil. Para eles, Brasil era banana, trópico, papagaio, carnaval."
Já para as famílias acolhedoras, entre os principais obstáculos estavam a falta de transparência sobre os tratamentos pelos quais as crianças passavam e em alguns casos à questão financeira.
"Algumas famílias tinham condições de arcar com as despesas do dia a dia de uma criança, em alguns casos até duas ao mesmo tempo, incluindo passeios ao litoral, ao shopping e outros locais de lazer. Outras, porém, não dispunham da mesma capacidade. Em certas ocasiões, isso acabou gerando conflito pois as crianças comentavam entre si, o que cada família lhes oferecia, passando a comparar as vantagens e desvantagens", pontua a historiadora Tatiana Marchette, que escreveu um livro sobre a iniciativa.
A comunicação foi um outro entrave. As famílias preservavam a tradição e a língua ucraniana trazida pelos seus parentes ao Brasil no século 19, no entanto, o idioma falado pelas crianças em 1999 havia se transformado, inclusive influenciado pelo russo. "Algumas famílias tinham dificuldade de dialogar, usando um ucraniano antigo e colonial, com essas crianças que tinham essa influência russa", conta a historiadora.
Apesar das dificuldades, a iniciativa marcou a vida das famílias acolhedoras. "Todas as famílias que eu entrevistei para o livro se emocionam ao recordar essa experiência, e algumas se arrependem de não terem mantido contato com a criança de quem cuidaram. Esse sentimento, acredito, vêm à tona também por efeito da guerra na Ucrânia: elas se veem pensando no destino desses que hoje são adultos, vivendo com o passado do acidente nuclear e em um país conflagrado", afirma Marchette.
O fim e uma nova fase
Ao longo de 1999, Santos e Welgacz começaram a avaliar uma mudança no foco do programa. Um dos profissionais de saúde que acompanhou as crianças havia sugerido – após conhecer o Hospital das Clínicas da Universidade Federal do Paraná, em Curitiba, – que médicos ucranianos viessem ao Brasil para receber treinamento para o transplante de medula óssea.
Mas o episódio que culminou com encerramento do programa ocorreu com o último grupo que chegou em outubro de 1999. Nele havia um menino que veio muito doente, e acabou não retornando com o restante do grupo. Seu estado de saúde piorou durante a estadia em Curitiba, e ele precisou ficar internado. Num esforço da comunidade ucraniana, foram arrecadados fundos para trazer os pais do menino ao Brasil.
O menino ficou em Curitiba até apresentar melhora e ter condições de viajar para a Ucrânia em março de 2000. Ao voltar para o país europeu, porém, ele não teve mais acesso aos medicamentos necessários, segundo o ex-embaixador, e morreu pouco tempo depois. A morte abalou os envolvidos no programa, e o projeto foi encerrado.
Neste mesmo ano, chegaram ao Brasil um grupo de profissionais de saúde ucranianos para um treinamento no Serviço de Transplante de Medula Óssea do Hospital das Clínicas. O projeto seguiu os moldes do programa das crianças, com famílias hospedando esses médicos em suas casas, e com a comunidade ucraniana paranaense financiando todos os custos da iniciativa.
"A Ucrânia não tinha como tratar crianças que precisavam de transplante de medula óssea. O objetivo dessa iniciativa era que esses médicos abrissem uma instituição nas bases da de Curitiba para tratar as crianças por lá mesmo. Não sei se conseguiram tirar essa ideia do papel. Ouvi dizer que eles tinham conseguido local e estavam em contato com a prefeitura de Kiev para instalar esse instituto, mas nunca mais soube do assunto", completa o ex-embaixador, que representou o Brasil na Ucrânia até 2001.
Assessoria/Clarissa Neher/Caminho Político
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