Moeda revela povoado onde 337 espanhóis morreram de fome

Peça de prata foi enterrada por navegador em 1584 nos alicerces de uma igreja na Patagônia. Quatro séculos e meio depois, arqueólogos a encontraram exatamente onde ele disse que a havia deixado. Após anos de investigações, a descoberta de uma pequena moeda de prata "real de a ocho" (também conhecida como "dólar espanhol"), cunhada na época do rei Filipe 2°, pôs fim a uma das lendas mais trágicas da colonização espanhola da América.
Uma equipe interdisciplinar chilena encontrou o objeto onde o navegador galego Pedro Sarmiento de Gamboa disse tê-lo colocado: nos alicerces da efêmera cidade de Rey Felipe, a segunda colônia mais meridional fundada pelos conquistadores espanhóis e mais conhecida como "Puerto del Hambre" (Porto da Fome) devido à terrível história de abandono que a acompanha.
Um clarão circular prateado, emergindo da lama, confirmou que foram os espanhóis que fundaram este assentamento fadado ao infortúnio no Estreito de Magalhães, a cerca de 56 quilômetros ao sul da atual cidade de Punta Arenas, no Chile.
"Encontramos a moeda exatamente no local e na posição descritos por Sarmiento em seus escritos", explica Soledad González Díaz, pesquisadora do Centro de Estudos Históricos e Humanidades da Universidade Bernardo O'Higgins, sobre a peça, que tem a cruz de Jerusalém de um lado e o brasão de armas de Filipe 2° do outro.
Díaz e vários outros pesquisadores trabalharam em sua pesquisa no âmbito de um projeto financiado pela Agência Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento do Chile (Anid), intitulado: Mergulhando na epopeia do fracasso: uma abordagem multidisciplinar à cidade de Rey Don Felipe (Puerto del Hambre), Magalhães, século 16.
Primeira pedra de uma colônia fadada ao fracasso
Foi o próprio Sarmiento de Gamboa quem, em 25 de março de 1584, lançou a primeira pedra da Igreja de Nossa Senhora da Encarnação e enterrou aquela moeda em seus alicerces como símbolo que marcava o nascimento oficial da primeira tentativa de colonização da costa norte do Estreito de Magalhães.
O batismo, no entanto, acabou se tornando a crônica de uma expedição infeliz, cujo fracasso representou a morte por inanição de 337 pessoas: dois frades franciscanos, colonos, soldados e marinheiros que acabaram abandonados.
Seus corpos foram encontrados três anos depois, em 1587, pelo corsário inglês Thomas Cavendish, que ancorou em uma cidade bem planejada, mas repleta de cadáveres: uma imagem macabra que o levou a apelidar o lugar de "Porto da Fome".
Descoberta que confirma a história
"É extremamente importante encontrar evidências dessa natureza in loco, não isoladamente, e que, por sua vez, dialoguem com as evidências documentais do local", disse o pesquisador Simón Urbina, arqueólogo da Universidade Austral do Chile.
A descoberta deste metal ritualístico permite aos arqueólogos projetar a localização das restantes estruturas do povoado – como casas e adegas – que aparecem num mapa do local, que foi um projeto do Império Espanhol para fortificar o estreito, após a passagem de Fernão de Magalhães em 1520.
Os pesquisadores utilizaram um sistema de geolocalização e detecção de metais com precisão milimétrica para mapear vários pontos do terreno e, nesse procedimento, a moeda foi encontrada.
"Naquela época, não sabíamos o que era, apenas detectamos um sinal muito intenso. Com todos esses dados em mãos, decidimos onde escavar e foi lá que o encontramos", explicou Francisco Garrido, arqueólogo do Museu Nacional de História Natural.
Magalhães: cinco séculos de história da Patagônia a serem descobertos
Em 2019, uma equipe de arqueólogos chilenos já havia encontrado peças de artilharia de bronze da conquista espanhola, dois canhões "meio-sacres", que pertenciam à expedição do marinheiro Sarmiento.
Este novo evento, além de ampliar a lista de estudos na área, conecta diretamente as descrições de documentos históricos do arquivo colonial com a paisagem arqueológica do Estreito de Magalhães, explica Joaquín Zuleta, filólogo da Universidade dos Andes (Chile).
"E estudar, além disso, a interação dos conquistadores com os povos nativos que viajavam pelo estreito, como os tehuelches e os kawésqar", acrescentou.
A fracassada epopeia de Sarmiento deixou para trás mais do que uma moeda, uma bússola, que cinco séculos depois serve de âncora para a reconstrução da história das tentativas hispânicas de povoar as terras da Patagônia.
md (EFE, DW)Caminho Político
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