Estados Unidos retomam investimento em usinas a gás natural, óleo e carvão para atender à demanda crescente por energia, impulsionada pela inteligência artificial, revertendo compromissos com energia limpa. Data centers precisam de quantidades enormes de energia para alimentar servidores e processar as informações que mantêm em funcionamento nossos sites, aplicativos e modelos de inteligência artificial generativa. Os Estados Unidos têm mais data centers do que qualquer outro país do mundo, e a demanda extra por energia está sobrecarregando as redes de transmissão e elevando o custo da eletricidade.
Sob pressão, operadores do sistema elétrico estão recorrendo a combustíveis fósseis poluentes para suprir rapidamente essa necessidade. Em alguns casos, também consideram a energia nuclear ou até a reativação de usinas a óleo, gás e carvão que estavam para ser encerradas.
Segundo uma análise recente da Reuters, a maior rede elétrica do país adiou ou cancelou no ano passado o fechamento planejado de 60% das usinas movidas a combustíveis fósseis. A PJM Interconnection abrange 13 Estados do leste americano, incluindo a Virgínia, conhecida como a "capital mundial dos data centers". Onze das usinas que deveriam encerrar suas operações eram as chamadas "peakers", acionadas em períodos de pico no consumo de eletricidade.
"Está claro hoje, em nível nacional, que a demanda por eletricidade está superando a oferta — o mercado reflete isso, e os geradores estão respondendo", afirmou à Reuters o porta-voz da PJM, Jeff Shields. "Precisamos de cada megawatt de energia que conseguirmos obter agora."
Para atender a essa demanda, algumas empresas de energia estão deixando outras prioridades de lado. A Dominion Energy, com sede na Virgínia, que havia se comprometido a migrar para fontes 100% renováveis até 2045, planeja investimentos significativos em gás e energia nuclear até 2039 para "gerar energia de forma confiável quando os clientes mais precisam".
Em Nevada, a concessionária NV Energy afirmou que os data centers podem levá-la a não cumprir a meta estadual de 50% de geração de energia renovável até 2030. Já na Carolina do Norte, que abriga quase 100 data centers, a NextEra Energy anunciou em dezembro que deixou de ver "um caminho realista para atingir emissões efetivamente zero de carbono até 2045".
Gás é energia "mais rápida, barata e fácil"
Dave Jones, analista-chefe do centro global de pesquisas energéticas Ember, disse que as demandas específicas de eletricidade dos data centers explicam a forte dependência de combustíveis fósseis, especialmente do gás.
Hoje, data centers voltados à inteligência artificial podem consumir tanta eletricidade quanto 100 mil residências, mas os maiores empreendimentos em construção exigirão até 20 vezes mais. Além disso, o avanço tecnológico acelerado torna difícil prever as necessidades futuras.
"É muito difícil, nesse contexto, planejar quanta eletricidade será usada", disse Jones, acrescentando que alguns data centers também estudam a geração de energia no próprio local. "A forma mais rápida, barata e fácil, aos olhos de muitas empresas, é usar gás."
Nos Estados Unidos, o gás natural responde por mais de 40% da eletricidade usada por data centers, segundo a Agência Internacional de Energia (IEA). Usinas a carvão fornecem 15%.
Em escala global, a IEA projeta que esses dois combustíveis poluentes responderão por mais de 40% da eletricidade adicional necessária para data centers pelo menos até 2030. A agência acrescenta que a demanda das novas instalações provavelmente será "um fator significativo de crescimento no curto prazo para a geração movida a gás natural e carvão".
Jones afirmou que o fato de "os preços do gás natural nos EUA estarem no nível mais baixo em 18 meses" torna o combustível ainda mais atraente.
Metas climáticas e o crescimento da IA
O preço baixo do gás, combinado com tarifas adicionais sobre a importação de painéis solares e outras tecnologias vindas do exterior, desacelerou a expansão das energias renováveis para data centers nos Estados Unidos. Mas, segundo Jones, esse não é o único fator em jogo.
"O outro componente de tudo isso é que simplesmente não há absolutamente nenhum desejo de responsabilidade climática", disse Jones, referindo-se ao afastamento das políticas climáticas sob o presidente Donald Trump. Muitas das projeções e compromissos feitos por empresas de IA para usar eletricidade limpa em seus data centers "foram jogados pela janela", afirmou.
Desde que voltou ao cargo no ano passado, Trump tem sido explícito em seu desprezo pelas energias renováveis. Ele assinou decretos para impulsionar os combustíveis fósseis, e o Departamento de Energia reiterou a importância do carvão e da energia nuclear para sustentar as necessidades energéticas dos EUA, especialmente diante do crescimento dos data centers e da IA.
"Como vamos reindustrializar a América? Como vamos vencer a corrida da IA nesse caminho?", disse o secretário de Energia, Chris Wright, durante uma coletiva no New York Foreign Press Center, em setembro de 2025, ao comentar os planos do governo anterior de eliminar gradualmente usinas a combustíveis fósseis. "A mudança climática, como qualquer outra questão, envolve um trade-off."
Renováveis em 27% dos data centers do mundo
Defensores da energia limpa, no entanto, afirmam que essa oposição entre clima e IA não precisa acontecer. Investimentos em linhas de transmissão e em armazenamento por baterias podem fornecer a energia extra hoje garantida por usinas de pico sem o aumento da poluição do ar, defendem.
Quase um quarto dos mais de 4.200 data centers nos Estados Unidos já é abastecido com eletricidade de fontes renováveis, especialmente em áreas ensolaradas do sul e do sudoeste. O mesmo ocorre em nível global. A IEA afirma que "energias renováveis e gás natural devem responder por mais de 65% de toda a eletricidade produzida para data centers até 2030" — inclusive em partes do Sudeste Asiático, onde a agência prevê que a demanda por eletricidade desses empreendimentos mais do que dobrará até 2030.
"A demanda por eletricidade está crescendo mais rapidamente por uma série de razões em países da Ásia, à medida que eles se eletrificam mais rápido", disse Jones. "As renováveis estão acompanhando isso em grande medida — mesmo na Índia e na China", onde atualmente há uma "combinação de carvão e renováveis".
Jones afirmou que a crise energética em curso em razão da guerra entre Estados Unidos e Israel no Irã pode levar países asiáticos que estão expandindo rapidamente suas redes de data centers a repensar a dependência de petróleo e gás para sustentar esse crescimento, passando a considerar energia nuclear e fontes renováveis.
"Houve um enorme impulso dado à eletricidade limpa com a alta dos preços dos combustíveis fósseis", disse. "As renováveis, a energia eólica e solar, são agora parte integrante da conversa e do foco das estratégias energéticas desses países."
Enquanto isso, nos Estados Unidos, opositores aos data centers começam a reagir. Uma pesquisa recente da Universidade Quinnipiac mostrou que 65% dos americanos são contra a instalação de uma dessas unidades perto de suas casas, sendo que quase dois terços apontaram o custo da eletricidade como motivo.
Em Nova Jersey, onde a conta média de luz subiu quase 17% no ano passado, moradores de uma cidade conseguiram recentemente cancelar um data center planejado por preocupações ambientais e energéticas. No Maine, parlamentares apoiaram um projeto de lei que suspende a construção de novos data centers até novembro de 2027, para avaliar os riscos à rede elétrica e ao meio ambiente.
"Se esses data centers não forem planejados e coordenados de forma cuidadosa, podem impor demandas extraordinárias à infraestrutura elétrica, ao meio ambiente do entorno e às comunidades anfitriãs", afirmou a deputada estadual Melanie Sachs.
Assessoria/Martin Kuebler/Caminho Político
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