O que Trump quer ao atacar o Irã e o que ele pode conseguir

Após lançar ampla ofensiva contra o Irã, Trump fala em destruir capacidade nuclear e programa de mísseis e insta população a derrubar regime. Especialistas apontam quais objetivos têm chance de ser alcançados. Pouco após Israel lançar o que chamou de "ataques preventivos" contra o Irã na manhã deste sábado (28/02), o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, confirmou que as ações faziam parte de uma ampla ofensiva conjunta israelo-americana.
"Nosso objetivo é defender o povo americano, eliminando ameaças iminentes do regime iraniano", disse Trump num vídeo compartilhado nas redes sociais, prometendo destruir as capacidades nucleares e militares do Irã. "Vamos garantir que o Irã não obtenha uma arma nuclear", disse. Ao definir os objetivos da ofensiva, Trump também disse que os EUA destruiriam o programa de mísseis balísticos do Irã e suas forças navais.
Como a campanha militar dos EUA e de Israel contra o Irã não parece ser de curto prazo e limitada, analistas acreditam que o conflito pode continuar por semanas, se não meses. E em meio à tensão, o resultado dos objetivos que Israel e os EUA esperam alcançar permanece em aberto, e as consequências podem não ser as desejadas.
1º objetivo: Impedir o Irã de ter armas nucleares
Após a guerra de 12 dias entre o Irã e Israel em junho de 2025, Trump declarou que os EUA haviam "obliterado" as principais instalações nucleares do Irã e que o regime fundamentalista não seria capaz de construir armas nucleares num futuro próximo.
"Os EUA estão conduzindo uma guerra cujo objetivo é, mais uma vez, destruir esse programa, então acho que isso é um pretexto", avalia Marcus Schneider, especialista da Fundação Friedrich Ebert (FES, na sigla em alemão) no Líbano.
"O programa nuclear do Irã sofreu um revés na época devido aos ataques dos EUA; alguns dizem que esse revés foi de alguns meses, outros, de alguns anos", diz. "Mas acredito que ele não pode ser eliminado. É também uma questão de conhecimento técnico, o que significa que, se o Irã tem o conhecimento técnico para construir essas centrífugas e enriquecer [urânio], então isso é algo que você não pode eliminar com a força aérea."
Shahin Modarres, analista de segurança baseado na Itália, afirma que um Irã com armas nucleares sempre será visto por Israel e pelos EUA como inaceitável. "Impedir a militarização nuclear é, portanto, um objetivo estratégico, não apenas uma preferência política", afirma.
Diba Mirzaei, do Instituto Alemão de Estudos Globais e Regionais (Giga), por sua vez, vê um pretexto para justificar a guerra, argumentando que "atualmente não há nenhum perigo prático emanando do Irã".
As negociações entre os EUA e o Irã em Genebra esta semana sobre o programa nuclear de Teerã não produziram resultados concretos antes do início dos ataques.
2º objetivo: Eliminação do programa de mísseis balísticos do Irã
Alguns especialistas acreditam que os EUA e Israel consideram as capacidades balísticas de Teerã uma ameaça maior do que seu programa nuclear. Na guerra de 12 dias do ano passado, o Irã demonstrou que seus mísseis poderiam causar danos a Israel e às instalações militares dos EUA na região.
"Operacionalmente, instalações de produção, locais de armazenamento e cadeias de aquisição de combustível sólido são alvos possíveis – como demonstraram os recentes ataques a infraestruturas relacionadas a mísseis", destaca Modarres.
"No entanto, o know-how tecnológico não pode ser destruído com bombas", diz ele, acrescentando que a erradicação completa do programa de mísseis do regime iraniano "é improvável, mas uma degradação severa e uma limitação de longo prazo da capacidade são possíveis".
Schneider concorda: "É uma indústria nacional, o que significa que não se trata de mísseis balísticos importados. O Irã está em posição, como provou desde o fim da última guerra, de produzi-los por conta própria. É claro que é possível destruir o arsenal, mas a questão é quanto tempo isso levará e quem será prejudicado no processo".
2º objetivo: Destruição das forças navais do Irã
Para Schneider, é mais viável para os EUA aniquilar a Marinha do Irã do que suas capacidades de mísseis. "É claro que isso é militarmente possível. Mas é preciso entender que o Irã também têm muitos barcos pequenos – as chamadas lanchas rápidas. Portanto, acho que não é algo que possa ser alcançado em uma semana", diz o analista.
Modarres destaca que há um precedente histórico para esse tipo de operação. "Durante a Operação Louva-a-Deus (1988), os EUA causaram graves danos às capacidades navais do Irã. Se a liberdade de navegação – especialmente no Estreito de Ormuz, que é um ponto crítico para o abastecimento energético global – for ameaçada, os EUA poderão justificar uma ação naval em grande escala. O objetivo estratégico disso seria garantir a abertura das rotas marítimas", enfatiza Modarres.
Sara Kermanian, pesquisadora de relações internacionais da Universidade de Sussex, no Reino Unido, compartilha dessa opinião: "Os Estados Unidos poderiam causar graves danos às forças navais ativas do Irã no curto prazo, degradando significativamente sua capacidade de interromper o tráfego marítimo".
4º objetivo: Mudança de regime
Não está claro como Trump pretende alcançar esse objetivo por meio de sua mais recente campanha militar, já que Washington não deu indícios de que iniciará operações terrestres dentro do Irã. Mas relatos de ataques aéreos israelenses e americanos contra alvos militares e governamentais dentro do Irã mostram que a campanha visa enfraquecer substancialmente o regime.
"Quando terminarmos, assumam o controle do seu governo. Ele será seu. Esta será provavelmente a sua única chance por gerações", disse Trump em seu discurso neste sábado. "Por muitos anos, vocês pediram a ajuda dos Estados Unidos, mas nunca a receberam."
Modarres diz que novos protestos em massa contra o regime linha-dura do líder supremo Ali Khamenei, semelhantes aos de janeiro, são prováveis, mas exigiriam um evento desencadeador poderoso. "Dada a memória da repressão, é improvável que haja uma revolta espontânea sem que haja um enfraquecimento estrutural do regime. Declarações que sugerem oportunidades podem funcionar mais como sinais estratégicos do que como compromissos firmes", avalia.
Schneider diz que derrubar o regime exigiria tropas terrestres. "Acho bastante fantasioso imaginar que Trump pretenda fazer isso apenas com o poder aéreo e acredite que a população iraniana se levantará em meio a uma guerra e agirá contra esse regime brutal", diz.
"Se o objetivo real é a mudança de regime, então presumo que esta guerra irá durar mais tempo, possivelmente vários meses. E a grande questão que se coloca é a da resiliência do regime", sublinha.
Modarres diz que a oferta de imunidade de Trump aos membros da Guarda Revolucionária Islâmica do Irã (IRGC, na sigla em inglês) "é uma estratégia clássica que visa incentivar a deserção da elite e acelerar a fragmentação interna".
"Sua eficácia aumentará se a pressão militar e econômica sustentada enfraquecer a coesão do regime. A rendição institucional da IRGC só seria plausível em condições de um colapso sistêmico profundo", afirma.
E se o objetivo de derrubar o regime não for alcançado?
Kermanian avalia que, se o objetivo de Trump de derrubar o regime não for cumprido, as consequências de curto prazo para os cidadãos podem ser graves.
"Um Estado ferido, mas intacto, pode responder com repressão intensificada, especialmente se perceber que segmentos da sociedade acolheram a pressão externa. Muito dependerá, então, de se a escalada será seguida por um acordo negociado que reestruture as relações e, pelo menos, alivie as sanções, ou se o confronto continuará em ciclos de sanções, conflitos por procuração e ataques periódicos", diz ela, acrescentando que, na ausência de um acordo, o Irã poderia entrar num período prolongado e mais severo de militarização e desgaste econômico.
Assessoria/Shamil Shams/Caminho Político
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