O jornalismo é espaço para “desenterrar homens vivos”

Um outro jornalismo precisa exercitar uma forte curiosidade emancipatória que subverta a ordem de enterrar homens vivos, libertando-os, inclusive o próprio jornalismo. Um barco a vela desliza suavemente sobre o rio. Já viu essa cena? Esse é um movimento que expressa objetivamente um quadro da realidade. No começo de meus estudos sobre o jornalismo a experiência do invisível fiz a seguinte pergunta: o que faz esse barco deslizar? Na época, Platão (428-347 aC) sugeriu: “O que faz o barco andar não é a vela enfunada, mas o vento que não se vê”.
Então, aquilo que estaria aparentemente invisível aos olhos na cena do barco a deslizar teria força constitutiva do real e que conforma o visível? O que não se vê é extraordinário, mas é também central para o movimento e, portanto, emprega forma ao ordinário? Para mim, sim, e foi isso que busquei argumentar em minha tese do doutorado em Comunicação (UFMG, 2017).
É claro que a motivação do meu estudo sobre o invisível tem lastro no jornalismo. Nas reuniões de pauta na redação, incomodava-me a grande quantidade de acontecimentos excluídos. Havia sempre o frágil argumento de que não eram “noticiáveis”. Impresso o jornal, lá estava um recorte de fatos “relevantes”, o todo visível. E aonde foram parar os inúmeros acontecimentos “não relevantes”?
Não é possível resumir aqui as discussões que fiz sobre essas e outras questões em torno do jornalismo e da experiência do invisível, objeto que rendeu vários artigos e livros. O que posso garantir é que essa reflexão segue aberta, inclusive em razão da força dos algoritmos e, como escrevi no texto anterior, retomei-a agora porque na época me faltou ousadia de recorrer a José Saramago.
Por meio das obras desse grande pensador e escritor português é possível também aclarar minha defesa de que o jornalismo é um dos lugares de constituição da superfície. Entretanto, isso só se realiza por meio da invisibilização de muitos acontecimentos e suas personagens, uma ação no jornalismo que chamei de “torção de silêncios e de palavras”.
É do jornalismo tecer um regime visível a partir de camadas não vistas e silenciadas da realidade. Claro, nas mídias jornalísticas tradicionais, o ver e o não ver, o falar e o calar não são lapsos, mas convicções ideologicamente estruturadas.
Sequestrado por organizações, o jornalismo seleciona os extraordinários que conformam uma sociabilidade dentro dos interesses do capital, dando aparência ordinária e organizada ao caos, mas sempre movida para o consumo de produtos e ideias de exclusão.
O todo conformado como realidade pelo jornalismo tradicional só existe porque nas camadas aprisionadas e não vistas estão enterrados pobres, negros, mulheres, crianças, lgbts, África, Palestina, América latina, o outro, etc, todo e qualquer tipo de ser que deformaria a superfície assentada na divisão de classes, na ganância, no lucro. O outro existe, está aqui, somos muitos de nós.
Não é que os excluídos não apareçam nas mídias. Não é que eles não afloram na superfície. Aparecem, viram extraordinários, mas isso só acontece para serem criminalizados ordinariamente, para que os conformados no andar de cima despeje todo tipo de ódio e violência. Os de baixo ascendem em páginas e programas de rádio e tv como “manchas criminais”, alvos de permanente extermínio.
O regime do visível no jornalismo produz o olhar para não enxergar, o falar para o calar, um movimento que chamei de “invisibilização por presença”. Enterra os excluídos vivos e os faz emergir para serem mortos.
Saramago, numa fala ao La Repubblica de Roma (jun. 2007), lembra-nos que “tudo pode ser extraordinário se é extraordinária nossa maneira de ver e de sentir”. Como nos vemos e sentimos nesse mundo? Visíveis? Em que medida? O fato é que o jornalismo sequestrado pelas mídias tradicionais mobiliza um regime do visível que enterra homens e acontecimentos vivos.
Em uma entrevista ao Diário de Lisboa (set. 1985), José Saramago revela o que ele quer com seu trabalho: “desenterrar homens vivos”. Penso que esse plano/compromisso é uma sugestão desconcertante para os atores envolvidos no jornalismo, não apenas os repórteres.
É preciso desenvolver uma consciência crítica diante da superfície, desconfiar das aparências e ter a percepção de que a realidade é resultado de camadas que se sobrepõem, de modo assimétrico e em movimento, afinal, nem história nem vida são lineares. Em muitas dessas camadas há homens e acontecimentos que gritam sem nossa escuta e percepção.
Um outro jornalismo precisa exercitar uma forte curiosidade emancipatória que subverta a ordem de enterrar homens vivos, libertando-os, inclusive o próprio jornalismo.
Texto escrito sem uso de Inteligência Artificial.
Paz & Bem
Cristian Góes
AGUILERA, Fernando Gómez. As palavras de Saramago. São Paulo. Editora Companhia das Letras, 2010.
GÓES, José Cristian. O jornalismo e a experiência do invisível: teoria, método e estudo de caso. Curitiba. Appris Editora, 2022.
Assessoria/Caminho Político
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