"Ao Brasil, interessa uma Europa independente dos EUA"

Na sua última semana como embaixador brasileiro na Alemanha, Roberto Jaguaribe relata à DW os desafios para ampliar a relação bilateral nos governos Bolsonaro e Lula e analisa o papel da União Europeia no mundo. Embaixador brasileiro mais longevo na Alemanha, Roberto Jaguaribe deixa o cargo nesta sexta-feira (11/07), após ter representado dois governos brasileiros muito distintos – Jair Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva – e lidado com três governos alemães, liderados por Angela Merkel, Olaf Scholz e, agora, Friedrich Merz.
Desde fevereiro de 2019, quando chegou a Berlim, ele acompanhou também, a partir da maior economia da Europa, desenvolvimentos geopolíticos como a invasão russa da Ucrânia, a alta em gastos militares no continente, a crescente competitividade dos produtos Made in China e o retorno de Donald Trump à Casa Branca.
Nesta entrevista à DW, ele conta como foi representar o Brasil durante o isolamento internacional dos anos Bolsonaro e depois receber o entusiasmo alemão com a eleição de Lula, e a dificuldade de elevar as trocas econômicas a um patamar equivalente à da relação histórica e política entre os dois países.
"Quando cheguei aqui, havia uma mudança radical no Brasil – uma mudança malvista não apenas na Alemanha, mas praticamente na Europa inteira", afirma. "Eu era o homem feio no baile, ninguém queria dançar comigo." Depois da eleição de Lula, conta, todas as autoridades alemãs o "chamaram para dançar".
Esse entusiasmo, porém, não se refletiu em uma "aceleração" significativa da relação econômica, em parte por conta "uma certa inquietação" sobre o futuro da indústria alemã. Ele considera que a atual corrente de comércio entre Brasil e Alemanha – de 20 bilhões de dólares em 2024 – é muito inferior à "intensidade do relacionamento político e das convergências de interesses e de valores" entre os dois países.
Para Jaguaribe, uma solução à vista seria a entrada em vigor do acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia (UE), que, na sua opinião, traria ganhos econômicos para os dois lados da equação, reduziria a pressão por desmatamento ao gerar riqueza e fortaleceria um eixo de países democráticos.
O otimismo com o acordo Mercosul-UE dá lugar um tom ácido quando a conversa avança para a lei antidesmatamento do bloco europeu (EUDR, na sigla em inglês). Ele considera que a norma foi elaborada a partir de uma visão "muito arrogante" sobre o que é sustentabilidade, e pode vir a ser usada como instrumento de protecionismo.
"A ideia de que Bruxelas tenha a chave da sustentabilidade do mundo (...) é profundamente equivocada, derivada de um dos problemas que a Europa enfrenta hoje, que é acreditar que o mundo todo ainda é eurocêntrico", afirma.
No entanto, ele reconhece a importância da "convergência valorativa" entre os países do continente e a América do Sul. E pontua que seria importante a Europa fortalecer sua independência frente aos Estados Unidos, crucial para um mundo multipolar equilibrado.
"Se é uma Europa atrelada a outro, e, no caso, o atrelamento é sempre com os Estados Unidos, já deixa de ser forte", diz. "Para ser forte, precisa ser independente de fato, e essa é a aspiração que o Brasil tem em relação a como é que a Europa deveria se colocar."
Questionado se Brasília deveria evitar alianças com líderes autocráticos, ele reconhece que o desafio global que se coloca hoje diante das democracias é "muito grande" e vai requerer uma "concertação de países que têm interesse em defender o modelo democrático". Mas diz que o Brasil "não é um missionário da democracia" e mantém relações "muito amplas, profundas com países de regimes de naturezas diferentes".
Ele critica ainda grandes países democráticos refratários a uma reforma da governança global – "o Brasil é defensor de modelos mais abertos e democráticos em tudo" – e a politização da defesa dos direitos humanos – "o chamado double standard, que é defender o direito internacional somente quando convém".
Aos 72 anos, Jaguaribe já foi embaixador em Pequim e Londres e agora deve atuar no Itamaraty em Brasília até sua aposentadoria. Ele será substituído em Berlim por Rodrigo de Lima Baena Soares, atual embaixador brasileiro na Rússia.
Começo difícil com "arroubos retóricos" de Bolsonaro
Indicado para a embaixada de Berlim durante o governo Michel Temer, Jaguaribe assumiu o posto em fevereiro de 2019, um mês após a posse de Bolsonaro. Não foi um início tranquilo. Na campanha, Bolsonaro disse que poderia retirar o Brasil do Acordo de Paris e prometeu que daria uma guinada na política externa do Itamaraty.
"Quando cheguei aqui, havia uma mudança radical no Brasil – uma mudança malvista não apenas na Alemanha, mas praticamente na Europa inteira", afirmou. Ele rememora que o governo Bolsonaro começou com uma retórica nas relações exteriores muito diversa da tradição do Itamaraty, em especial a política de não alinhamento.
"Uma das coisas peculiares era uma certa filiação, lembrando épocas pregressas não muito felizes, a interesses de outros países, particularmente um grande país da região", afirma.
Logo começaram os atritos com políticos alemães. Em abril de 2019, Bolsonaro afirmou que o nazismo havia sido um movimento de esquerda, provocando reação de partidos do país europeu. Dois meses depois, Merkel disse que via com "grande preocupação" a situação de direitos humanos e de meio ambiente no Brasil, e suspendeu o repasse de verbas ao Fundo Amazônia. Bolsonaro reagiu dizendo que Berlim não iria mais "comprar a Amazônia" e poderia "fazer bom uso dessa grana, o Brasil não precisa disso".
A ameaça de retirar o país do Acordo de Paris não se concretizou – segundo Jaguaribe, muito por pressão do agronegócio, que viu que teria prejuízo – e aos poucos a relação bilateral entre Brasil e Alemanha seguiu funcionando de alguma forma, apesar do isolamento internacional de Brasília. Ele aponta que isso ocorreu por diversos motivos.
O principal foi a "longa e densa história" de relações entre os dois países, que funciona como elemento de "união e confiança". Uma "solidez" ancorada em uma miríade de interesses econômicos e de parcerias em diversos níveis que se impõe sobre questões conjunturais.
Além disso, "arroubos retóricos" de autoridades no governo Bolsonaro não tiveram impacto prático no dia a dia da atuação da embaixada. "Não havia uma política estruturada, eram devaneios de algumas pessoas (...) Afetou minha orientação para cá? Praticamente nada", afirma.
Outro aspecto foi a "solidez institucional do Itamaraty", que segundo ele funcionou como inibidor para transformar retórica em prática. Reportagens da imprensa brasileira relataram que, na gestão Bolsonaro, alguns diplomatas montaram redes informais para trocar informações e articular-se com o objetivo de evitar maiores danos à política externa brasileira.
Indagado pela DW, ele afirma desconhecer se houve algo do tipo em Berlim – "mas não há dúvida de que colegas conversavam e mantinham um diálogo a respeito de questões relevantes estruturais". "O governo determina a política, mas sempre temos presente que, como funcionários de Estado, temos uma responsabilidade de estabilidade."
Se na embaixada em Berlim ele relata que o impacto não foi tão grande, na representação em órgãos multilaterais, em especial nas sedes da ONU em Nova York e Genebra, o cenário foi diverso. Lá, o Brasil patrocinou mudanças de posição "a meu juízo completamente equivocadas".
No governo Bolsonaro, Jaguaribe recebeu a visita da então ministra da Agricultura, Tereza Cristina, "que foi muito bem", do então ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, que o surpreendeu positivamente, e outras visitas "que não foram tão exitosas" – a mais difícil, diz, foi a do então Meio Ambiente, Ricardo Salles, sem detalhar o motivo.
Após vitória de Lula, "todo mundo me chamou para dançar"
Os momentos complicados à frente da embaixada no governo Bolsonaro deram lugar a uma onda de otimismo de políticos alemães com o Brasil, desde a vitória eleitoral de Lula em outubro de 2022 até meados de 2023, em uma magnitude que ele diz nunca ter visto na sua carreira diplomática.
"Todas as lideranças centrais e mais elevadas do governo alemão fizeram visitas ao Brasil num espaço de seis meses", afirma. O primeiro foi o presidente, Frank-Walter Steinmeier, seguido pelo chanceler federal Olaf Scholz, e os ministros da Cooperação e Desenvolvimento, da Economia e do chefe da Chancelaria, entre outras autoridades.
"Havia um conhecimento sólido dos protagonistas do novo governo, e isso gerou um clima de aproximação, entendimento, mesmo de entusiasmo, extraordinário". Esse movimento foi coroado com a visita de Lula a Berlim em dezembro de 2023, e as primeiras consultas intergovernamentais de alto nível entre os dois países em oito anos.
Jaguaribe diz ter resumido a mudança de clima da seguinte forma a uma autoridade alemã, em tom de brincadeira: "Eu era o homem feio no baile, ninguém queria dançar comigo. Agora todo mundo me chama para dançar."
Essa intensidade da relação bilateral no nível político perdeu força em seguida – "e nem poderia se manter, é impossível, não fazem nem com a França" – também em função de crises que ocuparam o então governo alemão em diversas frentes, envolto com os efeitos da guerra da Ucrânia, da inflação e da estagnação econômica. Houve também certa decepção na Alemanha com a posição de Lula sobre a guerra de agressão russa contra os ucranianos.
Mesmo assim, no final de 2024, a Alemanha fez um gesto "muito bem visto" no Brasil: unir-se à Aliança Global contra a Fome e a Pobreza lançada na cúpula do G20 no Rio de Janeiro, cuja presidência rotativa estava nas mãos do Brasil e era uma prioridade para Lula.
A Alemanha foi o primeiro país do G7 a se juntar à iniciativa, somando esforços de uma aliança similar do G7, a Aliança Global para a Segurança Alimentar, o que fortaleceu o papel do G20 no tema, diz Jaguaribe.
Comércio "muito inferior à intensidade da relação entre os países"
A corrente de comércio – soma de exportações e importações – entre Brasil e Alemanha em 2024 foi de 20 bilhões de dólares, aproximando-se do melhor ano da série histórica, 2011, quando alcançou 24 bilhões de dólares.
A Alemanha teve a quarta maior corrente de comércio com o Brasil, atrás da China (158 bilhões de dólares), EUA (81 bilhões) e Argentina (27 bilhões), e à frente de Holanda e Espanha (ambas com 14 bilhões).
Mesmo assim, Jaguaribe considera os números atuais "pífios" e muito inferiores à "intensidade do relacionamento político e das convergências de interesses e de valores" entre os países.
"Há uma extraordinária multiplicidade de oportunidades reais de negócios relevantes para os dois países. É difícil encontrar uma complementariedade de atendimento, de fragilidades e de competências como a que a gente vê entre Brasil e Alemanha."
Bruno Lupion/Caminho Político
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