EUA estão retomando as viagens espaciais tripuladas com naves americanas após quase uma década contando com a ajuda russa para chegar à ISS. A era da cooperação espacial entre Moscou e Washington está perto do fim.Nos últimos nove anos, só a Rússia era capaz de transportar astronautas até a Estação Espacial Internacional (ISS). Porém essa era de domínio russo chegou ao fim no sábado (30/05), quando o foguete americano Falcon 9 lançou dois astronautas ao espaço sideral, a bordo da cápsula
ISS: uma ilha de cooperação
O desgaste político entre Moscou e Washington, desencadeado pela anexação da Crimeia pela Rússia em 2014, afetou todos os aspectos da relação bilateral – exceto a cooperação relacionada ao programa ISS. Apenas uma vez, na primavera de 2014, o então vice-primeiro-ministro e atual chefe da Roscosmos, Dmitry Rogozin, advertiu os EUA de que o transporte de astronautas para a ISS poderia ser encerrado. Mas essa ameaça é coisa do passado. Em recente conversa ao vivo com a equipe da ISS, o presidente russo, Vladimir Putin, elogiou a "parceria eficaz" entre Rússia e EUA. "Há uma total concordância com os americanos", confirma Marinin, mas isso só se aplicou às viagens espaciais tripuladas, e não ao uso comercial e militar do espaço sideral. A competição relacionada às missões comerciais tem aumentado. Por exemplo, o SpaceX vem colocando a Rússia sob considerável pressão na área de lançamentos de satélites. Além disso, tanto a Rússia quanto os EUA estão avançando na tecnologia militar para o espaço. Com exceção dos voos tripulados, há muito as viagens espaciais russas estão numa posição mais fraca do que as americanas. O monopólio russo tornou possível esconder esse fato, afirma o especialista em viagens espaciais Andrei Ionin: "A cortina final que escondia a perda de motivação e a tecnologia obsoleta está agora sendo levantada. O governo vai perceber que o rei está nu." O especialista estima que a Rússia ficará para trás muito rapidamente, principalmente em comparação com o SpaceX. Ionin também espera que essa nova competição force o governo russo a aproveitar as possibilidades existentes para reformar a Roscosmos.
Lugares vagos na Soyuz?
Na esteira do voo da Crew Dragon, os EUA provavelmente reduzirão sua cooperação com a Rússia na área de viagens espaciais tripuladas. Segundo Marinin, as novas cápsulas americanas oferecem espaço para o dobro de passageiros e são mais modernas e confortáveis do que suas equivalentes russas, cuja construção ainda é baseada em soluções técnicas dos anos 1960. Mas ele acredita que a nave espacial Soyuz tem uma vantagem capaz de se manter ainda alguns anos: sua confiabilidade, comprovada ao longo de décadas. As operações da ISS têm continuidade garantida até 2024. Até lá, a Nasa vai depender cada vez menos da ajuda da Rússia para enviar astronautas ao espaço sideral. Isso, por sua vez, abriria capacidades para europeus e turistas espaciais. A Rússia já anunciou que retomará o transporte de pessoas privadas para o espaço em 2021. Marinin também espera que capacidades adicionais sejam dedicadas ao desenvolvimento da nova nave espacial Oryol (águia), cujo voo inaugural está programado para 2023. Em geral, a era da cooperação estreita entre Moscou e Washington na pesquisa espacial parece estar chegando ao fim. Os EUA pretendem viajar novamente à Lua – um objetivo compartilhado pela Rússia, que também planeja construir sua própria estação espacial para substituir a ISS. Ionin alerta que a maior conquista do programa ISS poderia, assim, se perder: a "inestimável experiência de cooperação". Um retorno às nações explorando sozinhas o espaço sideral seria um passo atrás, de volta à corrida espacial dos anos 1960.
Roman Goncharenko (rpr)Caminho Político
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