Auto de Natal, que é Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela Unesco, faz pensar sobre o fim dos tempos há 1.200 anos – e hoje parece fazer mais sentido do que nunca. Desde pelo menos o século 9º, paredes de pedra em templos nas ilhas de Maiorca, Sardenha e na Catalunha ecoam o Canto da Sibila a cada Natal. Não se sabe a autoria da melodia gregoriana, mas a letra do auto é atribuída a Sibila de Eritreia (séc. 6º a.C.), profetiza da mitologia greco-romana, traduzida do grego para o latim por Santo Agostinho.
Como a tradição medieval proibia que mulheres ocupassem altares fora do claustro, meninos sopranos, com uma espada erguida diante do rosto, cantam a mensagem feminina desde a Baixa Idade Média – rito que ainda é seguido em algumas igrejas, como o Santuário de Lluc. A maioria das igrejas hoje aceita versões com mulheres solando ou diante de grandes coros – e em 1990, a banda australiana Dead Can Dance gravou uma versão darkwave de The Song of the Sibyl.A canção que ouvimos tem mais de 1.200 anos, e sua mensagem atravessou mais que o dobro disso. O que ela diz, em pequenas variações: que os fogos secarão fontes e rios, que reis e barões terão o mesmo destino dos despossuídos, que crianças irão chorar ainda no ventre de suas mães, que o mundo será engolido pela escuridão.
Em A Cidade de Deus (426 d.C.), Santo Agostinho reafirma o caráter de renovação cristã e o tom apocalíptico das palavras da Sibila de Eritreia num momento em que o Império Romano está em crise, sitiado pelos bárbaros e pelos anseios do seu próprio povo. Convertido em estado totalitário, cujo controle estava nas mãos de nobres cercados por uma burocracia militarizada e hipervigilante, o 1% do Império oprimia seus súditos – o que é exposto por Agostinho no seu balanço da história romana.
Em seu tempo, as profecias sibilinas falavam da queda de Troia. Lidas por Agostinho, indicaram o fim do Império Romano – e hoje podem perfeitamente falar do declínio do Império Americano e da fase tardia do capitalismo. Mas há algo hoje muito além de uma crise sistêmica ou da queda de um império: o Antropoceno. O capitalismo pode acabar com a vida dos humanos sobre a Terra, junto com ele.
O Apocalipse cantado a cada Natal no Canto da Sibila tem um tom reflexivo, sua melodia gregoriana e moçárabe nos faz enxergar esse fim do mundo com alguma distância – talvez um pouco no tempo de Deus, como descrito nas Confissões de Santo Agostinho: uma eternidade contida num eterno presente. E se há alguma calma zen em experimentar esse ponto de vista impossível, através de uma lente circular que nos oferece um panorama infinito do tempo, aqui há também outro tipo de presentificação.
A emergência climática, após 25 conferências sobre o aquecimento global, não recebeu ainda uma resposta adequada de países e corporações, que preferem investir em negacionismo e destruição. E as emissões de dióxido de carbono seguem em alta, assim como as previsões para o aquecimento global. Se as temperaturas continuarem subindo nesse ritmo nos próximos anos – o que tudo indica que acontecerá – os leitores deste texto podem fazer parte da primeira geração de seres humanos para quem as profecias da Sibila de Eritreia façam realmente sentido.
J.P. Cuenca/Caminho Político
Comentários
Postar um comentário