Rede de colaboração
Depois de ter se registrado no aplicativo, o catador Cláudio, de São Paulo, não tem dado conta de tanta demanda. "Uma moça me chamou para pegar uma máquina de lavar. Depois, me chamou outra vez para pegar uma porta. Um rapaz para quem ela me indicou me chamou para fazer um carreto. Depois, o dono de uma loja de ar-condicionado me deu todo o restante de chaparia. Só não pego mais trabalho, porque não estou dando conta de tantos pedidos", relata. Cláudio diz que o Cataki aumentou ainda mais a sua responsabilidade. "As pessoas têm me dado muito espaço para trabalhar. Tento atender os clientes da melhor maneira possível", diz. "Muitas coisas que aconteceram na minha vida fecharam muitas portas, mas o Cataki começou a me dar alegria de fazer certas coisas, melhorou minha condição financeira. Todos estão dando a mão para mim e eu estou conseguindo seguir em frente diante de tantos problemas." O aplicativo também tem criado uma rede colaborativa. "Quando surge alguma coleta muito distante, eu repasso para um colega. Um ajuda o outro. Temos que ser unidos", afirma a catadora Fátima, também de São Paulo. "Nessa troca entre eles, nós descobrimos que em São Paulo tem uma catadora vendendo garrafa pet a 25 centavos, enquanto outro catador oferece o produto a 1,50 real. Com essa informação, a catadora passou a ter um comprador que paga seis vezes mais do que o anterior. Esse é um resultado real da rede colaborativa que eles próprios estão formando", destaca Alves.
Ideia surgiu da demanda
O projeto foi idealizado pelo grafiteiro Mundano, fundador do movimento Pimp my Carroça – um projeto para tirar catadores de materiais recicláveis da invisibilidade, com intervenções artísticas nas carroças, e que ganhou atenção global. O app foi resultado do contato intenso de Mundano com os catadores. "Muitas pessoas vinham me pedir indicação para a coleta, então eu virei um secretário dos catadores, passando contatos. A partir dessa demanda, antes de o Uber ser lançado no Brasil, tive a ideia de criar a plataforma para facilitar esse 'match' entre catadores e quem precisa do serviço deles. Mas não somos o Tinder, somos o Cataki", enfatiza. Quando a rede de catadores for maior, os usuários poderão compartilhar fotos e vídeos do que têm em casa e informar o endereço e horário desejado para a coleta. Os catadores mais próximos, que terão foto e informação de perfil, poderão então escolher se aceitam ou não fazer a coleta e sugerir um valor pelo trabalho. Essa nova versão do aplicativo ainda será desenvolvida. "O grande desafio não é apenas criar coisas incríveis com tecnologia, mas como torná-las populares e acessíveis para uma camada com menos privilégios, à margem da sociedade. Essa é uma porta de entrada para incluí-los na cadeia de negócios", observa Mundano. "Se formos esperar que o governo brasileiro ou as empresas paguem pelo serviço dos catadores, não vamos ter resultados. Eles fazem um serviço público de coleta e limpeza pública e precisam ser reconhecidos por isso." O serviço está mais estruturado em São Paulo e Recife. Mais recursos são necessários para chegar a outras regiões do país, mapear catadores e ampliar a rede. Com o reconhecimento internacional da iniciativa, Mundano e Alves esperam conseguir mais apoiadores. Vestidos com gravata de chita e camisetas de blocos de carnaval, os coordenadores do Cataki celebraram a premiação com confetes feitos a partir de material reciclável, apesar do frio de 1 grau Celsius e a neve fina em Paris. "Uma coisa de valor e que os catadores precisam é de atenção. Sentar junto e conversar. Ter alguém que te trata como pessoa e não como um ser invisível já é um ganho social muito importante. Esse é um ganho de rede e não de tecnologia", disse Breno Castro Alves.
Karina Gomes (de Paris)cp
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