Ricardo Salgado 'quebrou' o silêncio. No livro, o ex-banqueiro contou a sua versão dos factos.
Ricardo Salgado é uma das personalidades portuguesas mais mediáticas nos últimos anos, seja pela queda do BES que aconteceu a 3 de agosto de 2014, que resultou na sua detenção ou pelo seu alegado envolvimento num esquema para fugir ao Fisco e branquear capitais. Isto faz do banqueiro alvo de duas investigações, a do ‘Universo Espírito Santo’ e a do ‘Monte Branco’.
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Aquele domingo à noite, a 3 de agosto, nunca será esquecido pelos portugueses.Foi anunciada a intervenção pública no BES - dividido em dois bancos. Nasceu o Novo Banco, que ficou com todos os ativos ‘bons’ e que recebeu uma injeção de 4.900 milhões do Estado - 3.900 milhões foram emprestados pelo Estado e o restante por vários bancos a operar em Portugal - , depois de apresentar um prejuízo semestral histórico de 3.600 milhões de euros.
Durante quatro meses, o ex-banqueiro ‘quebrou’ o silêncio e aceitou contar à jornalista Alexandra Almeida Ferreira a sua versão dos factos.
Neste tempo ainda estava em prisão domiciliária, no verão de 2015 - agora já se encontra em liberdade. E destas conversas originou o livro ‘Os Dias do Fim’, lançado este mês pela Chiado Editora e agora analisado pelo Notícias Ao Minuto.
A obra debruça-se sobre a queda do império Espírito Santo mas aos olhos do ex-líder da instituição. Muitas são as declarações que podem ser consideradas polémicas, mas em toda a obra, Ricardo Salgado faz questão de assegurar que a culpa do colapso não foi sua e que lutará até ao fim para que a sua honra e a da sua família seja reposta.
“Contar os dias do fim do Banco Espírito Santo é contar também os dias da vida depois da queda do banqueiro Ricardo Salgado”
A jornalista colecionou dezenas de horas de gravações que manteve com Salgado em 2015. Durante toda a recolha de informação, Alexandra diz ter encontrado um homem “triste e desiludido” com tudo o que aconteceu.
“Acabar com o Banco Espírito Santo não castigou apenas a família, castigou a economia portuguesa que perdeu os seus centros de decisão”, lê-se.
Rejeitando a alcunha que lhe foi dada, ‘dono disto tudo, Ricardo Salgado diz ter ficado muito magoado com todas as acusações. “Hoje tenho uma grande mágoa, mas vou lutar até ao fim dos meus dias pela minha família e por todos os que foram prejudicados pelo fim do banco”, adiantou.
E o que sobra de um banqueiro? “Uma enorme deceção. Uma tristeza grande pela forma como o banco acabou”, explicou.
O colapso
Geriu a instituição durante duas décadas e a sua interpretação do fim é só uma: “Eles sabiam que o BES ia desaparecer. Eles queriam que o BES desaparecesse. Resolveram aplicar a resolução. Porque é que eles recusam dois investidores a quererem o aumento de capital?”, questionou, referindo-se à opção de o governador de Portugal ter dividido o Banco Espírito Santo em banco bom e banco mau, transferindo todos os ativos tóxicos para este banco mau.
No verão de 2014, o Banco de Portugal exigiu ao BES, que em 48 horas conseguisse um aumento de capital de dois milhões de euros e que apresentasse um plano de reestruturação, depois de terem rejeitado a proposta de Salgado, que previa a entrada de investidores privados.
Para Salgado só há uma explicação, a “resolução foi uma decisão eminentemente política e que noutro contexto político, outra solução teria sido viabilizada".
“O banco não faliu. Foi obrigado a desaparecer”
Ainda hoje, Ricardo Salgado assegura que o desfecho poderia ter sido diferente. Poderia ter sido arranjada outra solução que não levasse ao fim de uma instituição com 150 anos e que não tivesse lesado os clientes.
“Ainda hoje não se conforma. Nunca se conformará. Os últimos anos da sua vida serão dedicados a isso mesmo: salvar a honra da sua família, mesmo que a família seja hoje um conceito bastante diferente daquele que teria há um ano atrás. O mesmo dos amigos. (…)”, escreveu a jornalista.
“O BES não faliu, foi forçado a desaparecer. Por uma total falta de visão dos governantes do nosso país e da ação por parte do Banco de Portugal que, no fundo, julgo já tinha a intenção de acabar com um banco de família”, acusou Salgado.
O ‘fim’ da família Espírito Santo
O ex-líder recorda a reunião da qual a família sairia destruída, por culpa, do primo José Maria, a 7 de novembro.
Esperava um golpe por parte do seu primo, até porque já sabia que José Maria Ricciardi era “um homem de explosão fácil, reativo, nervoso e pouco tático”. “Nunca quis acreditar naquilo que ele estava a fazer. (…) Eu disse-lhe: ‘José Maria, tenho ouvido (…) que tudo andas a preparar a minha substituição e andas com abaixo assinados e eu gostava francamente que essas coisas se passassem às claras”, recordou, explicando que ele sempre negou estas afirmações.
Pouco tempo depois, o banqueiro, então com 70 anos, sabia que era hora de preparar a sucessão. “Era a consciência da realidade. Eu de facto tinha de sair. Não é frequente ver presidentes executivos na banca com a minha idade. (…) Não saí mais cedo por causa da crise. Uma das regras básicas que aprendi na minha vida é que o comandante da embarcação é o último a abandonar o barco", sublinhou.
Salgado explicou que não vai atacar a família, mas pensou que a união prevalecesse. "Fiquei concerteza desapontado. Sempre pensei que a família se mantivesse unida. (…) O problema da desunião aparece quando vêm os novos para o Conselho Superior e que pretendem ao fim de algum tempo assumir posições de relevo sem quererem saber de mais nada. Sem pesarem bem as circunstâncias", afirmou.
Uma vida acima das possibilidades?
Num dos capítulos, o ex-banqueiro compara o Grupo Espírito Santo e a Portugal e a ideia que transmite é de uma vida acima das possibilidades.
“O endividamento excessivo do Grupo, não do BES. O GES soçobrou e foi a área não financeira que arrastou o banco. Portugal também tem um problema de dívida oculta que pode chegar aos 70% do PIB, que arrastou o sistema financeiro. O problema da gestão: a influência da gestão no Estado leva a que a gestão seja alterada por influência política. Jobs for the boys. Numa empresa famíliar, a gestão é influenciada pela família. Jobs for the family, (…)”, adiantou.
As memórias de um ano e meio que o abalou
“Não cheguei a pedir desculpa aos clientes porque sigo a máxima expressa no verso de Fernando Pessoa: ‘é pior pedir desculpa do que não ter razão’. Sempre atuei para salvar o BES, sempre invoquei as razões que me moviam. Pelos vistos não foram compreendidas nem aceites. Mas não vou desistir de apontá-las. O que não me resigno é a pedir desculpas e considerar que, com isso, fica tudo bem. Quero que os clientes percebam que procurei, até ao fim, salvaguardá-los”, declarou.
O tempo é agora de reflexão. “Hoje tenho uma noção mais clara daqueles que contribuíram para o desaparecimento do Grupo. Mas vou continuar com o mesmo principio porque julgo que é assim que devo fazer. Não que me considere um Deus Ex-machina ou qualquer coisa parecida. Não sei quantos anos vai durar este processo judicial mas considero que o melhor que posso fazer, é continuar a lutar pela honra e dignidade da minha família”, referiu.

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