Regresso da líder oposicionista após dez meses de exílio acende esperanças de mudança democrática de governo na Venezuela, que é governada interinamente desde captura de Nicolás Maduro pelos EUA. Após quase um ano no exterior, a líder opositora venezuelana e prêmio Nobel da Paz María Corina Machado retornou de forma surpreendente no domingo passado (25/10) ao seu país, onde foi recebida por milhares de apoiadores, que manifestaram seu apoio à coordenadora nacional do partido Vente Venezuela (VV).
Depois da "profunda repressão" vivida entre 2023 e 2025, "foi realmente comovente ver tantas pessoas saírem às ruas" e se mobilizarem por motivos políticos, comenta Laura Cristina Dib, diretora do programa para a Venezuela da ONG de direitos humanos Escritório em Washington para Assuntos Latino-Americanos (WOLA, na sigla em inglês).
Nesta segunda-feira, o secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, disse que o governo dos EUA incentivou, há várias semanas, o governo interino da Venezuela a permitir o regresso de Machado. "Falamos com as autoridades provisórias e apenas lhes dissemos: 'Ela deveria poder regressar com toda a tranquilidade, sem enfrentar problemas'. Eles responderam-nos que ela podia aterrissar no aeroporto se quisesse, e nós transmitimos essa informação à sua equipe", disse.
Também nesta segunda-feira, um representante do Departamento de Estado disse que o governo de Trump (a quem Machado presenteou com sua medalha do Nobel) apoia um plano de ação na Venezuela para promover a renovação de órgãos importantes, como o Tribunal Superior de Justiça (TSJ) e a Comissão Nacional Eleitoral (CNE), nos próximos meses, o que deveria levar a presidente inerina, Delcy Rodríguez, a declarar a vacância na presidência e abrir um prazo de seis meses para a convocação de eleições.
Pressão popular
Dib diz que o retorno de Machado cria um elemento de pressão sobre Washington por causa da mobilização social. Para ela, os venezuelanos demonstraram estar comprometidos com uma via democrática, pacífica e eleitoral e querem uma transição genuína e crível.
Isso incluiria todas as garantias para a realização de eleições, a libertação dos presos políticos, reformas legítimas, o fim das inelegibilidades, a definição de um calendário eleitoral e a renovação do Conselho Nacional Eleitoral, órgão responsável pelas eleições.
"Há um profundo descontentamento que pode ser canalizado pelo retorno de Machado. Esperamos que Washington ouça essa pressão para conseguir assegurar alguns desses marcos democráticos que a população está exigindo", afirma a especialista do WOLA à DW.
Dib não descarta que Washington esteja também enfrentando pressão por parte do setor privado. Como garantia para seus investimentos na Venezuela, alguns agentes econômicos estariam exigindo regras claras e maior previsibilidade em relação ao futuro.
Segundo a advogada venezuelana, essa circunstância poderia explicar a entrada de Machado no país no domingo, após sete tentativas fracassadas e dez meses no exílio.
Teste para Machado
O cientista político José Vicente Carrasquero, da Universidade Simón Bolívar, da Venezuela, também diz que o retorno de Machado pode acelerar a transição democrática no país sul-americano "porque devolve capacidade de mobilização e organização a uma liderança com considerável apoio popular".
No entanto, Carrasquero acrescenta que "esse potencial dependerá da capacidade dela de transformar o entusiasmo do retorno em organização duradoura, acordos entre as forças democráticas e reivindicações concretas".
Além disso, Carrasquero diz que que é preciso observar quanto espaço de fato Machado será autorizada a ocupar na política venezuelana. "Seu retorno vai adquirir verdadeiro alcance democrático se ela puder percorrer o país, reunir-se com seus apoiadores e defender suas propostas com segurança e liberdade", afirma.
Quem controla a transição?
O regresso da líder oposicionista coincide com as negociações entre alguns setores da oposição e o governo interino, liderado por Delcy Rodríguez.
"A Venezuela atravessa uma estabilização sob tutela dos Estados Unidos, cujo desfecho democrático segue em aberto", diz Carrasquero. "Washington dispõe da maior capacidade de condicionar os rumos gerais: combina poder militar, instrumentos econômicos e apoio político à administração de Delcy Rodríguez. Sua intervenção foi determinante tanto para a continuidade dessa administração quanto para a configuração das negociações."
No entanto, o acadêmico venezuelano pondera que, dentro do país, o aparato chavista preserva instrumentos decisivos de poder. "Administra as instituições, mantém capacidade coercitiva e pode facilitar, atrasar ou limitar as mudanças. Por isso, descrever seus dirigentes como simples executores de instruções dos Estados Unidos subestimaria seus interesses e sua capacidade de resistência."
Por outro lado, diz ele, "as forças democráticas oferecem apoio da população, organização e uma demanda por legitimidade que nenhum acordo pode ignorar indefinidamente". Ele avalia que o retorno de Machado poderia fortalecer a capacidade de influência da sociedade civil.
O cientista político critica "uma distribuição profundamente desigual do poder: os Estados Unidos condicionam o quadro estratégico; o chavismo conserva o controle operacional do Estado; e as forças democráticas tentam transformar seu apoio social em capacidade efetiva de decisão".
"A questão decisiva", ressalta, "é para onde esse equilíbrio conduz. Haverá avanços democráticos quando aqueles que controlam o Estado aceitarem garantias que lhes permitam perder o poder e entregar o governo. Até lá, a democratização continuará sendo uma possibilidade em disputa."
Assessoria/Viola Traeder/Caminho Político
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