Com receitas da mãe e ajuda das redes, confeiteiro de Cuiabá faz panificadora crescer após vídeo viral: 'vendi 60 coxinhas'

O vídeo em que denuncia, com muito bom-humor, um entregador de aplicativo que teria comido três das quatro coxinhas de uma encomenda transformou o confeiteiro Ângello Muniz, conhecido como Ângello Gog’s, em assunto no Instagram dos cuiabanos e impulsionou as vendas de sua pequena panificadora, a Angelu's Panificação. Aos 33 anos, ele viu a procura pelos salgados aumentar depois que a história viralizou e chegou a vender mais de 60 coxinhas em um único dia.
"As fatias húngaras e as coxinhas são o carro-chefe, mas acho que neste mês acho que vai sair muita coxinha por conta do vídeo que viralizou. Perdi as contas de quantas eu fiz ontem, tive que ir ao mercado para comprar tudo de novo. Hoje cedo ia vender no Procon, não consegui, porque acabou o frango. Deve ter passado de mais de 60 coxinhas. Em um dia comum às vezes vendia 20 coxinhas", conta Ângello.
A pequena panificação funciona casa em que o jovem mora com a mãe, no bairro Jardim Gramado, em Cuiabá. É lá que ele produz bolos de aniversário confeitados, além dos salgados e das fatias húngaras. O negócio, construído aos poucos com equipamentos comprados conforme o dinheiro permitia, ganhou novo fôlego com a repercussão do vídeo publicado no Instagram.
"Vamos comprando uma balança, alguém está vendendo um forno, a gente compra… Vamos investindo aos poucos, como minha mãe já fazia pães e biscoitos para vender, fomos pegando o prumo, já estava meio caminho andado".
Embora a viralização tenha ampliado a procura pelos produtos, a trajetória de Ângello na cozinha começou muito antes das redes sociais. Desde criança, ele gostava de cozinhar e ajudava a cuidar dos irmãos enquanto os pais trabalhavam fora. Aos 8 anos, ele já ajudava o pai a vender os pães caseiros feitos pela mãe, a quem cresceu assistindo cozinhar.
“Tive uma época de negação [sobre seguir na gastronomia], porque eu falava: isso é um sonho da minha mãe, não é meu. Realmente nunca foi um sonho meu, sempre foi um dom, então hoje em dia tenho mais clareza disso. Hoje é o que está dando dinheiro e acho que me encontrei. Gosto de fazer mesmo e foi juntando uma coisa com a outra".
A família já havia tentado manter uma pequena padaria no bairro Coophema, em Cuiabá. “Não deu muito certo fomos embora para Sinop e voltamos. Nisso que voltamos, lembro que alguém estava precisando de um bolo na igreja, eu acabei fazendo e o pessoal gostou. Fui fazendo aos poucos".
A gastronomia como profissão começou a ser uma realidade em 2019, pouco antes da pandemia da covid-19, quando Ângello recebeu uma oportunidade no buffet Mundo Mágico, em Cuiabá. Na época, o estabelecimento precisava de alguém para preparar salgados. Apesar de ter experiência apenas com receitas feitas em casa, ele decisiu tentar.
"Eles fizeram um teste comigo porque estavam precisando, seria uma semana de teste e deu tão certo que comecei a trabalhar lá. Isso foi em meados de 2019. Lá é pauleira, eram mil salgados por dia, o dia inteiro. Aprendi tudo sozinho. Na pandemia todo mundo ficou parado, quando voltou, eu tentei voltar, mas ninguém estava gastando dinheiro com nada de evento".
A pandemia interrompeu parte dos trabalhos com eventos e reduziu a procura por encomendas. Para manter a renda, Ângello passou por diferentes estabelecimentos e chegou a conciliar quatro trabalhos: a produção em casa, atividades na Musiva, na pastelaria Pastelariza e na confeitaria Bendito Bocado.
A rotina intensa, no entanto, não era suficiente para fazê-lo sentir que estava avançando profissionalmente. Enquanto trabalhava em diferentes lugares, começou a perceber que precisava apostar no próprio negócio. “No ano passado decidi que ia trabalhar para mim mesmo, porque todo mundo ficava me pedindo as coisas. Pensei: cara, quer saber, vou voltar”, relembrou.
A decisão de investir na própria produção coincidiu com o crescimento de seu conteúdo nas redes sociais. Ao publicar vídeos de receitas e mostrar parte da rotina, Ângello começou a receber pedidos de pessoas interessadas em experimentar o que fazia. Um dos produtos que ajudaram a consolidar a clientela foi a fatia húngara, preparada a partir de uma receita de sua mãe. Depois de compartilhar o resultado, ele percebeu o interesse do público e passou a oferecer o doce para venda.
“Tive um sonho fazendo uma fatia húngara, fiz e comecei a oferecer para vender. A coxinha foi uma conversa com a minha amiga Luma, falei para ela que queria fazer, estou até com o projeto de fazer outros recheios, porque o pessoal está gostando muito. Nisso de postar, viralizando, o pessoal procurando, eu fazendo marketing e entregando, o pessoal querendo conhecer. As redes sociais foram uma aliada nesse processo, eu não tinha vontade de trabalhar com rede social, sempre fui um pouco vergonhoso".
Instagram e TikTok passaram a funcionar como uma ferramenta de divulgação e aproximação com o público. Ângello também começou a compartilhar mudanças na própria rotina e no corpo, resultado de sua prática de crossfit, e foi perdendo a timidez diante das câmeras. "Tenho alguns amigos que pegavam muito no meu pé para eu começar a gravar vídeo. Comecei a perceber que a parte da gastronomia é muito a minha área, quero investir nisso do conteúdo. Comida é uma coisa que vende muito, o pessoal adora", conta.
Sonho de ampliar a panificadora
Aos 58 anos, a mãe de Ângello é sua parceira e sócia na Angelu’s Panificação. Embora ajude de forma esporádica, com tarefas como lavar a louça e preparar recheios, a maior parte da produção fica por conta dele. O confeiteiro conta que um dos principais objetivos é fazer o negócio crescer para que ela possa descansar. Como a Angelu’s Panificação funciona na casa onde Ângello mora com a mãe, ele sonha em ter o próprio espaço para produção
“Minha mãe já está cansada. Ela me ajuda, mas é bem esporádico. Ela é minha parceira e minha sócia. Eu quero muito dar mais certo ainda para ela poder descansar, porque às vezes ela faz bico, como hoje, que está trabalhando desde cedo. Quero dar aquele descanso para ela”, afirma.
A relação dos dois com o trabalho começou cedo. Ainda criança, Ângello ajudava o pai a entregar pães e, depois da escola, trabalhava na mercearia da família. Agora, ele sonha em ter um espaço próprio para a panificadora e deixar de conciliar a rotina de produção com a vida dentro de casa.
“É uma briga diária, porque você morar e trabalhar na mesma casa. É o meu sonho ter um espaço. Minha mãe fala que às vezes fico mais quieto, mas é o dia inteiro vendendo e falando. Chega à noite, eu não quero mais falar”, conta.
Apesar das dificuldades de empreender no Brasil, ele avalia que o último ano foi de aprendizado e crescimento. “Não é uma grana muito alta, porque abrir uma empresa no Brasil hoje em dia é muito complicado, tudo é muito caro. Mas em um ano tive um boom, aprendi muito”, diz.
O que mais o emociona, porém, é perceber que o esforço começa a dar resultados também aos olhos da família. Ao falar sobre isso, ele lembra uma frase da cantora Beyoncé que o marcou: “Somos os sonhos dos nossos antepassados”.
“Vejo que eles têm muito o olhar de que está dando certo. Isso me emociona bastante”, afirma.
Assessoria/Bruna Barbosa/Caminho Político
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