História das tartarugas-gigantes de Galápagos é um conto de piratas: agora, 'tartarugas alienígenas' apareceram pela primeira vez desde o século XIX
A história das tartarugas-gigantes de Galápagos é uma história de piratas. A partir do século XVI, esses marinheiros começaram a chegar às ilhas, seguidos mais tarde por baleeiros, e o destino fatal das centenas de milhares de exemplares que habitavam o arquipélago foi selado. A resiliência das tartarugas-gigantes, que especialistas acreditam terem chegado às Ilhas Galápagos vindas da América do Sul há dois ou três milhões de anos, tornou-se sua maior fraqueza: como conseguiam sobreviver até um ano sem comida ou água, eram capturadas sabendo-se que resistiriam nos porões dos navios. "E quando essas pessoas queriam comer, as tartarugas estavam simplesmente lá, prontas para serem consumidas, e elas tinham carne fresca", disse Jorge Carrión, diretor de conservação da Galapagos Conservancy, organização que trabalha para preservar o arquipélago desde 1985, à CNN.
Uma indústria improvável desempenha um papel central na história: a indústria da baleia cachalote.
Antes do início da exploração de petróleo, o mundo dependia do óleo de cachalote para lubrificantes de alta qualidade, combustível para iluminação e outros usos, explicou James Gibbs, vice-presidente de Ciência e Conservação da Galapagos Conservancy e professor da Universidade Estadual de Nova York, à CNN.
No Pacífico, havia uma enorme indústria dedicada à exploração desses cetáceos, especialmente por navios da costa leste dos Estados Unidos e da Califórnia. “Todos chegavam aqui — já que o Canal do Panamá ainda não existia — contornando o Cabo Horn e seguindo para as Ilhas Galápagos. Após uma viagem que durava quase um ano, com tripulações famintas, eles paravam no arquipélago. Uma parte fundamental da expedição baleeira era parar nas Galápagos para capturar tartarugas-gigantes, que eram coletadas às centenas”, relatou ele.
Além do que levaram embora, o problema foi o que trouxeram: com os humanos vieram espécies exóticas na ilha, como ratos, porcos e outros mamíferos que ou predavam os ovos e filhotes das tartarugas ou competiam com elas por habitat e meios de subsistência.
Em apenas dois séculos, entre 100.000 e 200.000 tartarugas desapareceram daquelas ilhas quase míticas que Charles Darwin visitou em 1835 a bordo do HMS Beagle, sob o comando do Capitão Fitzroy, numa viagem que se tornaria fundamental para a sua teoria da evolução das espécies.
As tartarugas-gigantes de Galápagos não pertencem a uma única espécie; cada ilha possui sua própria espécie de tartaruga que, ao longo do tempo, se adaptou ao seu ambiente. E várias dessas espécies foram extintas devido à caça às baleias. A primeira a ser extinta, por volta de 1850, foi a tartaruga-de-floreana, uma das ilhas mais populares devido ao grande número de tartarugas que ali viviam, à sua acessibilidade e ao seu clima favorável (na verdade, foi a primeira ilha do arquipélago a ter residentes permanentes no século XVII). "Eram tartarugas muito incomuns, com um formato realmente pronunciado — o que chamamos de formato de 'sela' — que não se encontra em nenhum outro lugar do planeta", diz Gibbs.
A descoberta de “tartarugas alienígenas” em um vulcão a centenas de quilômetros de distância.
Durante uma expedição em 2000 ao Vulcão Wolf, o ponto mais alto das Ilhas Galápagos, localizado ao norte da Ilha Isabela, pesquisadores liderados por Gibbs encontraram tartarugas com uma carapaça incomum para a região.
“Havia milhares de exemplares das espécies nativas lá (...), mas logo ficou claro que também havia algumas tartarugas estranhas”, lembra Gibbs, cuja relação com as Galápagos remonta a décadas: ele chegou como voluntário quando ainda era estudante universitário e as ilhas, diz ele, o transformaram, então ele decidiu dedicar sua vida à sua conservação.
Em expedições subsequentes, eles encontraram novamente muitas dessas tartarugas “altamente esculpidas, em forma de sela”, vivendo juntas em cânions estreitos. “Nós as chamávamos de alienígenas porque não sabíamos o que eram”, ele recorda. Eles coletaram amostras de sangue e as enviaram para geneticistas da Universidade de Yale, que confirmaram as diferenças em relação às espécies conhecidas na ilha e usaram o mesmo termo: alienígenas. Quatro anos depois, novos estudos genéticos confirmaram que elas não eram extraterrestres: pertenciam à linhagem Floreana.
Mas como é possível que tenham sido extintas em uma ilha e reaparecido 150 anos depois em um vulcão na outra extremidade do arquipélago? Existem duas hipóteses, diz Carrión. Uma é natural: quando há chuvas fortes, formam-se enchentes repentinas, arrastando tudo em seu caminho, o que poderia tê-las transportado entre as ilhas. Mas os cientistas acreditam que a explicação mais provável é que os humanos foram os responsáveis, mais uma vez. “Lembre-se de que piratas e baleeiros costumavam vir às Galápagos e levar dezenas ou centenas de tartarugas em seus navios. Uma possibilidade é que tenha ocorrido um acidente perto do Vulcão Wolf”, explica ele, e a outra é puramente logística: a Ilha Isabela, devido à sua localização, era o último ponto de controle para os navios antes de se aventurarem no Pacífico. Lá, verificavam o peso dos navios e, se estivessem acima do limite, podiam descartar algumas tartarugas, que, felizmente para o futuro, poderiam ter ido parar em uma ilha inesperada.
Da incubação dos ovos à soltura em Floreana: a história de como uma espécie se recupera.
O Centro de Criação de Tartarugas Terrestres Fausto Llerena trabalha desde 1965 para proteger esses répteis gigantes. Eles já obtiveram sucesso na reprodução, criação e posterior soltura de espécies das ilhas de Española e Santa Fé, entre outras, e 19 espécimes da linhagem Floreana foram transferidos para lá após sua descoberta no Vulcão Wolf para seus cuidados e reprodução.
Freddy Villalba, da Direção do Parque Nacional de Galápagos, é guarda-parque há 23 anos e é o gerente deste centro de reprodução.
No centro, trabalham com tartarugas adultas e com ovos postos por tartarugas em cativeiro, como as da Ilha Floreana, ou recolhidos na natureza. Lá, marcam, pesam e colocam os ovos em incubadoras a diferentes temperaturas. Nessa fase, o sexo das tartarugas ainda não está determinado: isso será determinado pela temperatura em que os ovos se desenvolvem, explica Villalba. Nas incubadoras programadas para 29,5 °C, nascerão tartarugas fêmeas, e nas programadas para uma temperatura ligeiramente mais baixa, de 28 °C, nascerão tartarugas machos.
Após quatro meses de incubação, os ovos eclodem e a equipe transfere as tartarugas recém-nascidas para caixas escuras com umidade controlada, onde permanecerão por um mês e se alimentarão exclusivamente do saco vitelino, conhecido como "yemita", em uma réplica do processo que fariam na natureza.
Trinta dias depois, eles saem para recintos onde se alimentam de folhas picadas chamadas "orelhas de elefante", sua dieta durante os dois primeiros anos. Durante essa fase inicial, eles precisam ser "monitorados com muito cuidado", diz Villalba, porque medem de oito a nove centímetros e, nesse tamanho, ainda são presas fáceis para predadores.
Tecnologia da Nasa e rastreamento de satélites
Em fevereiro de 2026, 158 filhotes de "tartarugas alienígenas" foram soltos na Ilha Floreana com dispositivos de rastreamento por satélite para que os cientistas pudessem estudar como elas reagem ao seu habitat e como o habitat reage a elas. Com financiamento da Nasa, os especialistas identificaram os melhores locais para a soltura das tartarugas, áreas onde elas poderiam posteriormente nidificar.
Essas são descendentes das tartarugas encontradas há mais de 20 anos no vulcão, que “prosperaram tremendamente”, diz Gibbs. “Nunca se sabe como animais trazidos da natureza se adaptarão ao cativeiro, mas estes prosperaram de forma notável. São comedores vorazes e altamente reprodutivos; em um período muito curto, produziram 800 filhotes e continuarão a produzir uma média de 60 por ano”, afirma Gibbs.
Assessoria/Ángela Reyes Haczek e Fabian Galvis/Caminho Político
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