Jovens que tombaram contra a ditadura militar estariam hoje nas manifestações contra a anistia e contra a tentativa de golpe da extrema-direita. Frei Tito, Stuart Angel, Honestino Guimarães, José Carlos da Mata Machado, Gildo Lacerda e centenas de jovens combatentes simbolizam a coragem e o preço pago pela democracia.
A juventude de ontem e a resistência de hoje
Neste 21 de setembro de 2025, milhares de jovens — de todas as idades — tomaram as ruas das principais capitais do país para gritar bem alto: Ditadura Nunca Mais. Os atos foram convocados por centrais sindicais, movimentos sociais, organizações estudantis e entidades democráticas, mas ganharam um caráter que ultrapassa a conjuntura imediata.
Não é só a PEC da Bandidagem, estúpido
Não se trata apenas de protestar contra a PEC da Blindagem — também chamada de “PEC da Bandidagem” —, contra a pseudo “dosimetria” que pretende abrandar penas de golpistas ou contra a falsa narrativa de “pacificação nacional”. As manifestações de hoje são, acima de tudo, contra a ditadura militar, contra sua herança de violência e contra a tentativa criminosa de Jair Bolsonaro e sua organização militar criminosa de reinstaurar, em 2023, um regime autoritário com os mesmos métodos da ditadura de 1964.
Pai, afasta de mim esse cálice de vinho tinto de sangue
Foi justamente a memória da resistência cultural que marcou o ponto alto do ato: Caetano Veloso e Gilberto Gil, que chegaram a ser presos pela ditadura militar, dividiram o palco com Chico Buarque, o compositor mais censurado do regime. Ao entoarem juntos a canção “Cálice”, composta por Chico e Gil em 1973, milhares de vozes ecoaram o verso proibido durante os anos de chumbo: “Afasta de mim esse cálice de vinho tinto de sangue.” A cena ressoou como uma ponte entre gerações, unindo a juventude que resistiu ontem e a que luta hoje para que nunca mais se repita o arbítrio.
Frei Tito: fé e resistência
Frei Tito de Alencar Lima, dominicano, foi preso em 1969 e submetido a torturas brutais pelo delegado Sérgio Fleury e pelo DOI-CODI. Libertado em troca dos diplomatas sequestrados em 1970, exilou-se na França. Carregava no corpo e na mente as marcas da violência. Em 1974, aos 28 anos, não resistiu ao trauma e tirou a própria vida. Seu nome virou sinônimo de mártir e referência moral contra a barbárie.
Stuart Angel: a juventude assassinada pelo terror
Filho da estilista Zuzu Angel, o militante Stuart Angel Jones foi preso em 1971. Levado à Base Aérea do Galeão, foi brutalmente torturado e morto por militares que arrastaram seu corpo com a boca amarrada ao cano de escape de um jipe. Seu assassinato chocou o país e o mundo, e levou sua mãe à denúncia incansável da ditadura — até ela mesma morrer em um “acidente” de carro forjado pelos órgãos de repressão.
Honestino Guimarães: o presidente da UNE que não voltou
Honestino Guimarães, estudante de Geologia da UnB e presidente da UNE em 1971, foi sequestrado em outubro de 1973, no Rio de Janeiro. Nunca mais foi visto. Até hoje é considerado desaparecido político. Seu nome batiza o campus da Universidade de Brasília e a memória de sua militância inspira gerações.
José Carlos da Mata Machado: sonho interrompido
Mineiro, estudante da UFMG e militante da Ação Popular Marxista-Leninista, José Carlos foi preso em outubro de 1973. Torturado e assassinado, seu corpo foi enterrado como indigente. A Comissão Nacional da Verdade reconheceu o crime de Estado, e sua memória ressurge como símbolo da juventude que ousou sonhar com um Brasil livre.
Gildo Lacerda: coragem diante do arbítrio
Ex-presidente da UNE, Gildo Macedo Lacerda foi assassinado em 1973. Lutava pela reorganização do movimento estudantil em meio à mais dura repressão. Seu nome pouco aparece nos livros oficiais, mas permanece na memória da militância como parte da longa lista de jovens cuja vida foi interrompida pela violência da ditadura.
Uma homenagem à juventude assassinada
A ditadura militar (1964–1985) sequestrou, torturou e assassinou centenas de jovens na casa dos 20 anos. Muitos continuam "desaparecidos," -- eufemismo inventado pela ditadura para esconder o corpo dilacerado dos jovens torturados até a morte outros. Foram filhos e filhas, estudantes, trabalhadores, religiosos e militantes que ousaram dizer não ao autoritarismo.
Hoje, quando multidões voltam às ruas contra a anistia farsesca e contra a tentativa de reedição do fascismo, é justo lembrar que a democracia brasileira é regada pelo sangue desses jovens. Eles não puderam viver para ver a liberdade que ajudaram a conquistar, mas vivem em cada ato de resistência.
A Geração 68 está presente — na memória, nas faixas, nos cantos, nos corpos que hoje marcham pelas avenidas. Ontem contra o AI-5. Hoje contra a anistia canalha. Sempre contra a ditadura.
Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum e do Caminho Político
Assessoria/Gustavo Tapioca/Caminho Político
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