Isso tudo é impensável no Brasil, onde a maior parte do humor se reduziu a linha auxiliar de correntes políticas. A seção “Street of Shame” (Rua da Vergonha), então, seria impublicável. São três páginas que revelam os bastidores mais comprometedores da mídia britânica. A coluna fala de puxadas de tapete, assédios, relações promíscuas entre editores e governo e, frequentemente, aponta discrepâncias entre as políticas editoriais e os anunciantes dos jornais. Também ridiculariza semanalmente as chamadas de primeira página.
Private Eye foi fundado em 1961 por Richard Imgrams, Paul Foot, Christopher Book e o cartunista e escritor Willie Rushton. Dois anos depois, à beira da falência, foi comprado pelo ator, escritor e humorista Peter Cook. Com o argumento de que a sátira precisava ser preservada na Grã Bretanha, ele juntou amigos ricos e sugeriu que eles se quotizassem para financiar o jornal.
Nos anos 80, o Private Eye passou a ser editado por Ian Hislop, que está lá até hoje. Ele se orgulha de ser o homem mais processado da Inglaterra. Com a morte de Peter Cook em 1995, os “quotistas-celebridades” saíram e o jornal, hoje, é publicado pela Pressdram Ltd, que tem sete shareholders. Um deles é Hislop.
O Eye sempre teve grandes colaboradores. Entre eles, o diabólico Auberon Waugh, autor de engraçadíssimos “Diários” falsos, que ridicularizavam o mundo literário e jornalístico. O cartunista Gerald Scarfe, responsável pelas sequências animadas do filme “The Wall”, do Pink Floyd, também foi assíduo nos primeiros anos. Craig Brown segue por lá até hoje, parodiando semanalmente cartas e diários íntimos de celebridades. Graydon Carter, o longevo editor da Vanity Fair americana, era um fã declarado e manteve Brown como colaborador da revista até 2017, quando deixou a redação.
O site do Private Eye é espartano e funciona mais como teaser para assinaturas (veja a Galeria de Capas). Os perfis no Twitter, Instagram e Facebook são institucionais e só publicam cartuns esparsos. Textos completos, nunca.
A “crise do meio impresso” é uma realidade que precisa ser enfrentada com originalidade e atrevimento. O Private Eye é um grande exemplo de como fazer isso com graça e coragem.
Edson Aran é redator-chefe da IstoéDINHEIRO. Jornalista, escritor e roteirista com grande experiência no mercado de revistas, Aran atuou não apenas como editor, mas também em planejamento estratégico, orientação em áreas de marketing/distribuição e controle de budget. É criador do República dos Bananas (www.republicadosbananas.com.br) e do Marcha da História, e autor de livros de ficção e não-ficção.
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